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Movimento Roessler

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Lá pelos anos 90 do século passado, os ambientalistas que militavam no Movimento Roessler tiveram a ideia de promover caminhadas periódicas pela região com objetivo de conhecer melhor o objeto da sua luta – a natureza que nos cerca – indo além dos livros, cursos e palestras, mas interagindo com ela de forma bem mais crocante, em contato com o barro e a poeira, e sob os rigores do clima.

No começo, o grupo se reunia em datas pré combinadas, tomava um ônibus interurbano e seguia até próximo a um local de interesse onde ocorriam as caminhadas, mas aos poucos a ideia tomou forma, foi organizada e ganhou um nome: “Projeto Fim-da-Picada”, se consolidando como importante atividade do Movimento Roessler, ao permitir que os participantes tivessem a oportunidade de conhecer locais que certamente nunca visitariam por conta própria, até mesmo por desconhecerem sua existência. Desde então adotou-se o lema “Conhecer para Preservar”.

Uma das causas do sucesso foi a simplicidade da proposta: a quem quisesse participar das caminhadas bastaria ir até a Praça 20 de Setembro no último sábado do mês até as oito horas da manhã. Dali saiam rumo a uma parada de ônibus, ou se distribuíam entre os carros disponíveis para seguir por esse meio, se fosse o caso. Não havia taxas a pagar nem eram oferecidas camisetas, carro de apoio, água ou alimentos. Cada um cuidava da sua mochila levando lanche, água, protetor solar, repelente, agasalhos e uns trocados para o ônibus, ou a vaquinha do combustível, e para uma cervejinha durante o retorno. Nas paradas de descanso era usual acontecer um compartilhamento das gostosuras e, eventualmente, alguém poderia ler um texto que julgasse interessante compartilhar com o grupo.

Dessa forma, o Movimento Roessler proporcionou aos felizes participantes das caminhadas, por mais de vinte anos, além de conhecimento, o deslumbramento por paisagens inesquecíveis, banhos de rio, lagoas e cachoeiras, frutas colhidas no pé pelos caminhos, muitas horas de boa conversa, troca de experiências ao longo das trilhas e, é claro, alguns perrengues, que se procurava resolver na hora, com bom humor, tolerância e muita responsabilidade, pois não se pode negligenciar os riscos dessa atividade.

No começo ainda não existia celular, quanto mais internet para se pesquisar e definir roteiros, sendo necessário recorrer a mapas em papel, livros e o conhecimento de pessoas experientes que com boa vontade davam orientação, porém não raro os trilheiros erravam o caminho, precisando retornar, do que talvez tenha se originado o nome “Fim-da-Picada”. Algumas caminhadas foram feitas com o auxílio de bússola de agulha e, quando surgiram os primeiros GPS Garmin, não foi fácil decifrar como usar aquela coisa. Com o advento da internet, os inscritos na lista de interesse passaram a receber convites explicativos sobre os roteiros por e-mail, e o planejamento passou a ser feito com os recursos de geoprocessamento, através dos aplicativos disponíveis, facilitando enormemente esse trabalho. Já as milhares de imagens registradas pelos participantes, no início foi usando filmes de rolo que precisavam ser substituídos. Depois vieram as primeiras câmeras digitais com memória interna ou de cartão, que foram melhorando até o surgimento dos smartphones e câmeras Go-Pro. Para os mais jovens, que cresceram com tais facilidades, não deve ser fácil imaginar toda aquela complicação.

Pode-se dizer que o Fim-da-Picada percorreu quase todos os caminhos, visitando quase todos os mirantes, rios, cachoeiras e povoados históricos em um raio de 100 Km a partir de Novo Hamburgo e, por vezes, ainda mais longe, a exemplo dos Aparatos da Serra, rios Caí, das Antas, Taquari e Maquiné, restinga da Laguna dos Patos, entre outros, permitindo uma grande aquisição de conhecimento e experiência pelos participantes que se revezaram ao longo dos anos em que o projeto funcionou, bastando para isso que fosse possível chegar caminhando aos locais de interesse.

Infelizmente, quando a COVID apareceu em 2020, foi necessário interromper a atividade em respeito às comunidades visitadas, visando garantir o isolamento social e evitar a propagação do vírus. Do antigo grupo, alguns se dispersaram ou se envolveram em outras atividades, enquanto outros já não se sentem aptos a caminhar de 15 a 20 Km subindo e descendo as ladeiras tão comuns na nossa região. Entretanto, o projeto Fim-da-Picada não foi extinto; ele está suspenso e aguardando o momento certo para sua retomada, certamente com um grupo renovado, mas aproveitando todo o histórico acumulado ao longo dos anos, para levar outras pessoas a conhecerem os mais belos recantos da nossa região, da melhor forma que existe: caminhando! Quem se habilita?

Para matar a saudade ou a curiosidade, acesse: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/user.do?id=1776133

Gerson Guidobono