Movimento Roessler

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O Rio dos Sinos é um curso d´água extraordinário. Um ente mágico. Por um lado ele é uma fonte de vida pra todos os seres vivos que habitam o seu vale. Literalmente ele corre nas veias de quem bebe suas águas. As mesmas que movimentam diversas atividades econômicas no campo e na cidade.

Se por um lado ele é forte, por outro ele é bem frágil na medida em que sofre com todos os impactos da atividade humana que afetam a disponibilidade de água no seu leito e a qualidade destas águas. O que o coloca num estado de permanente atenção para que continue um rio vivo capaz de manter seu aspecto sócio cultural mais importante que é o de ser o fator de identidade de todos que vivem as suas margens e formadores.

A origem do rio remota há cerca de 130 milhões de anos quando o antigo continente de Gondwana começou a se separar dando origem ao oceano Atlântico. Fenômeno que segue até nossos dias com o afastamento da África e da América do Sul.

As forças tectônicas que moveram esse processo geraram grandes derrames de lava. Essa se espalhou por cima do grande deserto que havia no centro do antigo continente.

Ao esfriar essa lava se fracionou em inúmeras linhas de fratura que marcaram o caminho para as intempéries, ao longo ao milhões de anos, fossem esculpindo o território do Vale do Sinos, entre outros.

Após o último período glacial, há alguns milhares de anos atrás, a vegetação tropical desceu pelo litoral e pelos vales da bacia cisplatina e veio se misturar nas partes baixas do Vale do Sinos formando a mata atlântica que ainda hoje cobre áreas na região.

Essa paisagem foi ocupada por povos originários que denominavam o rio de Cururuaí e Itapuí. O primeiro nome significando rio dos ratões do banhado. Um testemunho da quantidade de animais que habitavam os grandes banhados ao longo das partes baixas do vale. Dizem que esses animais gritam à noite de suas tocas nas margens. O que explica o nome Itapuí – rio das pedras que gritam.

Esses povos originários começaram a modificar a paisagem. Mas devido à pouca densidade populacional e poder tecnológico foram danos pequenos.

A transformação da paisagem começou no século 18 quando os ocupantes açorianos acompanhados de escravos africanos começaram a criar gado na região. Logo o Império Português implantou a Feitoria do Linho Cânhamo em São Leopoldo. Projeto que não durou muito, mas que foi determinante para que o local, já no século 19, fosse escolhido como destino da colonização alemã no sul do Brasil. Essa migração passou a ocupar todo o vale transformando-o numa paisagem agrícola e deslocando a maior parte da população anterior e mudando o uso do solo. O que começa a afetar mais o rio.

Já no século 20, se implanta a indústria do couro que trouxe um novo elemento de degradação à paisagem e as águas do Sinos. Este fenômeno gerou a primeira reação cidadã em defesa do rio liderada por Henrique Luiz Roessler. Pioneiro da defesa da natureza organizou um grupo de militantes da causa que atuou até os anos 60 e se esvaiu com a morte do líder. Mas que deixou uma massa crítica de cidadania que mais tarde se somaria a nova geração de ecologistas do vale.

Essa geração surgiu quando, nos anos 70 e 80, houve um aumento da industrialização de calçados voltados para a exportação que incrementou a poluição e atraiu milhares de pessoas de outros pontos do RS para a região. O resultado foi uma urbanização sem controle que trouxe outros fatores de degradação como o lixo e esgoto cloacal.

Em 1985, numa palestra no centro de cultura de Novo Hamburgo, técnicos do Departamento do Meio Ambiente (DMA) declararam que os estudos de qualidade do rio apontavam que, se nada fosse feito, até 1990, o rio poderia estar morto. Metade pela poluição das cidades, metade pela poluição da indústria.

Essa denúncia mobilizou o Movimento Roessler e a Upan a desencadear um trabalho em prol do rio. Com a ajuda de um financiamento da Igreja Católica alemã, obtido com a intervenção do bispo Dom Sinésio, se iniciou o chamado Programa de Setes Pontos em prol do Rio.

O primeiro passo foi contra os curtumes, que na época não tratavam seus dejetos. Foi feito uma grande campanha chamada Rio que te quero limpo, com adesivos em defesa do rio criada pelo artista Rogério Rauber.

Como a indústria não queria fazer nada, os ecologistas realizaram um grande ato público com o apoio do grupo Valão. Um coletivo de artistas que atuava na região. Foi feita a pintura do quadro do rio no muro da sede da igreja luterana junto ao calçadão de Novo Hamburgo.

O ato gerou grande polêmica na imprensa local com jornalistas se dividindo entre apoiadores e contrários ao desenho exposto no local.

O debate também mexeu com vários setores se manifestando no Jornal NH em prol do rio. Isso fez o Grupo Editorial Sinos lançar outra campanha chamada “SOS Rio dos Sinos”, apoiado pela indústria tentando capturar a liderança do tema. Mas a mobilização cidadã já era tão grande que o DMA acabou interditando alguns curtumes depois do fracasso de rodadas de conversa entre os ecologistas e curtumeiros em Porto Alegre. Isso fez com que tecnologia de tratamento industrial começasse a ser introduzida na região e amenizasse a poluição das indústrias.

Mas os ecologistas queriam mais e seguiram no enfrentamento dos impactos do lixo e do esgoto no rio e propuseram que fosse criado um órgão para cuidar do rio. Essa ideia encontrou eco em dois setores.

O primeiro foi o dos pesquisadores da Unisinos, liderados pelo professor Henrique Fensterseifer, que já trabalhavam em pesquisas sobre a natureza do rio.

O segundo foi um grupo de técnicos do Estado, liderados pelo engenheiro Antônio Grassi, da Corsan e pelo economista Eugênio Canepa, da Cientec. Eles estudavam modelos de gestão das águas mundo afora.

O grupo da Unisinos organizou um seminário que ocorreu em setembro de 1987 na sede antiga da Universidade. Neste evento os três grupos em prol do rio propuseram criar um Comitê de Preservação, Gerenciamento e Pesquisa da Bacia dos Sinos.

Essa ideia foi levada ao governador Pedro Simon que, em 17/3/1988, criou o Comitesinos nomeando as 29 entidades presentes no Seminário como seus membros.

O Comitesinos foi o coroamento de um longo processo de cidadania que foi um marco na gestão das águas no Brasil. Foi o primeiro comitê de bacia criado no país e sua experiência serviu de base, junto com outros criados logo depois, para a criação de toda a legislação gaúcha e brasileira sobre o tema nos anos 90. O que desencadeou toda uma nova fase na proteção das águas brasileiras.

Arno Kayser
Agrônomo, Ecologista e Escritor. Fundador e membro do Comitesinos desde 1988. Ex-presidente da entidade e do Movimento Roessler