Movimento Roessler

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O futuro é ancestral

Apesar de este texto ter o título de um pequeno, e ao mesmo tempo, gigante livro de Ailton Krenak, começo por uma citação que é comumente atribuída a Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Não posso afirmar que essa frase tenha sido realmente dita por Einstein, mas, seja como for, quer dizer muita coisa, pois as descobertas do físico alemão abriram caminho para a criação de armas nucleares. E se qualquer nação que detenha tamanho poder bélico resolvesse usá-las, tal profecia sobre o fim do mundo se tornaria um grande vislumbre da realidade. Nós vivemos no planeta Terra, lar de muitas espécies, incluindo a espécie humana, aquela que está destruindo a própria casa. Nego Bispo dizia: “eu não sou humano”. Dizia que indígenas e quilombolas são alheios a esse conceito de humanidade, que tem como propósito acumular, explorar, ferir, matar e destruir. Para indígenas e quilombolas, a abundância está em proteger, cuidar, zelar, defender e compartilhar saberes e cuidados com a terra, que é de onde viemos e para onde voltaremos. Para Nego Bispo, a vida é composta por uma circularidade de começo, meio e começo! Nesse meio do caminho, a terra nos dá tudo. Mas Nego Bispo nos ensinou que “a terra dá e a terra quer”. Para que ela cuide de nós, precisamos cuidar dela. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a terra”. Krenak nos diz que “o futuro é ancestral”. E se o futuro é ancestral, precisamos ouvir as “ideias para adiar o fim do mundo” daqueles que vieram antes de nós. Precisamos ser capazes de ouvir e reproduzir as histórias de quem luta pela soberania da terra há muito tempo, pois o pensador indígena nos ensina que se formos capazes de continuar contando histórias estaremos adiando o fim do mundo. Por isso, se o mundo se encaminha para um colapso socioambiental, precisamos ouvir quem há milênios segura “a queda do céu”, como nos diz Davi Kopenawa. O cuidado com a vida é uma herança passada, pelos povos originários, de geração em geração e a todos aqueles com quem dividimos o planeta. Os principais nomes do ambientalismo também escutaram essa lição e há muito tempo vêm construindo um legado de preservação inspirado na sabedoria ancestral. Há quase cinco décadas, o Movimento Roessler vem renovando seu compromisso de lutar pela maior causa de todas: a proteção e a defesa da vida, em todas as suas formas de ser. Para finalizar, de forma circular, como aprendemos com Nego Bispo, gostaria de parafrasear Einstein e dizer que: não sei como será o futuro do mundo, só sei que ele será ancestral. Einstein acreditava que se a humanidade gastasse seu último e mais poderoso recurso bélico voltaríamos para o início das civilizações. Mas nós, ambientalistas, protetores e guardiões da vida, indígenas e quilombolas, por outro lado, acreditamos que a solução para que não venhamos a exaurir nossos recursos naturais está na circularidade de seguir em frente com as ferramentas ensinadas por quem caminha em outro tempo, e nesse tempo nos ensina a olhar para trás. Referências: BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Luana Rosa, Presidenta Movimento Roessler, Bióloga e Doutora em Desenvolvimento Rural

VerdeSinos e Movimento Roessler desenvolvem atividades socioambientais com guaranis da Aldeia Pindoty

Com encontros mensais da Roda de Conhecimento Ambiental, desde o início do projeto VerdeSinos etapa 5, em agosto passado, indígenas da Aldeia Pindoty, do município de Riozinho, desenvolvem ações socioambientais. Neste primeiro mês de 2026, os guaranis receberam lixeiras e orientações para a correta separação e destinação dos resíduos sólidos. Os encontros são participativos, com oficinas práticas e integração de saberes tradicionais e técnicos. Cada uma das cinco famílias recebeu lixeiras para separar lixo seco, orgânico, cinza do fogo, casca de ovo e bombonas para armazenamento do óleo de cozinha usado. Através do projeto VerdeSinos, realizado pelo Comitesinos e Movimento Roessler, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, a comunidade já construiu uma composteira que colaborará com a produção de adubo para a horta a ser implementada. Neste encontro também foram definidas as mudas de árvores frutíferas que serão plantadas no pomar, conversado sobre a escolha dos equipamentos rurais, como ferramentas manuais e tratorito, que ajudarão na execução da agrofloresta e identificado o local para a horta de verduras e ervas. A reserva indígena conta com 24 hectares onde residem cinco famílias formadas por guaranis que vieram de Santa Catarina, em 2012, e se estabeleceram ali. Conforme o cacique Felipe Oscar Brizoela, é preciso compreender o momento histórico que se vive e saber equilibrar a realidade de uma aldeia urbana com a manutenção da cultura guarani, com a transmissão da cultura ancestral para seus descendentes. O líder também reforça a importância de valorizar o acesso às ferramentas, mudas e sementes, além de todo apoio do VerdeSinos, enquanto mantém a tradição e verbaliza esses ensinamentos na língua guarani para que todos prestem atenção. A bióloga Virgínia Koch, que atua há 26 anos com os indígenas daquele território, ressalta que os juruá – termo indígena para se referir ao homem branco – têm muito a aprender com os indígenas. “As aldeias urbanas são espaços riquíssimos para essas trocas de saberes e contribuição com o planeta, com cada um fazendo a sua parte”. Para Kely Boscato, coordenadora do VerdeSinos, as ações realizadas e as previstas evidenciam o papel do Projeto VerdeSinos: Cidades-Esponja como articulador de soluções baseadas na natureza. “Focamos na educação ambiental e na participação social, consolidando as condições técnicas, institucionais e territoriais para a construção de um mundo melhor”. A Aldeia Pindoty conta com uma escola guarani, uma casa de rezo, plantação de milho guarani – com grãos nas cores amarelo, preto, branco e azul, cultivo de erva-mate e criação de porcos e galinhas. Cátia Cylene