Vivemos tempos de emergência climática. O que na década de 90 parecia uma profecia apocalíptica e há três anos parecia um alarmismo exagerado dos ambientalistas, hoje faz parte da nossa realidade e pode ser testemunhado e vivenciado com nossos próprios olhos, como foi o episódio das inundações de 2024 que atingiram o Rio Grande do Sul.
As notícias são alarmantes: estamos cada vez mais próximos do ponto de não retorno, o planeta já ultrapassa aquecimento de 1.6ºC desde a era pré-industrial, as geleiras dos polos do planeta estão derretendo, vivenciamos ondas de calor e frio cada vez mais intensos e em meio a essa enxurrada de notícias, tomamos banhos curtos e separamos nosso lixo, com a sensação de impotência avassaladora, enquanto setores do agronegócio desmatam milhares de hectares de florestas nativas para monocultura e bilionários passeiam em seus jatinhos particulares, emitindo toneladas de gás carbônico na atmosfera por dia.
Além da sensação de impotência, ocorre a sensação de amortecimento. Estamos caminhando para condições inóspitas para a vida humana na terra, mas ninguém parece se importar muito com isso. No entanto, apesar da sensação, talvez não estejamos tão sozinhos assim.
Conforme a quarta edição da pesquisa “Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros”, realizada em 2025 pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, 93% dos brasileiros está pelo menos um pouco preocupado com o meio ambiente. 50% muito preocupados, 29% preocupados e 14% um pouco preocupados. 76% separam seu lixo para reciclagem. 63% já compartilhou informações ou notícias em defesa do meio ambiente. 45% votou em algum político pelas suas propostas para defesa do meio ambiente e 19% participou de alguma manifestação ou abaixo assinado sobre mudança climática.
Analisando esses dados, me parece que não há uma falta de consciência ou preocupação em relação ao meio ambiente, mas falta saber como agir e onde agir. Foi inviável para a maioria das pessoas comparecer à COP 30 ou manifestar-se contra a privatização do Rio Tapajós no Pará, mas o que podemos fazer aqui e agora, no nosso local e território? Por mais que seja pequeno, separar seu lixo é importante. Evitar pequenos desmatamentos e o corte predatório de árvores, é importante. Uso consciente dos recursos, é importante. Cada um fazendo a sua pequena parte, o conjunto de ações se torna grande.
O mesmo em relação ao compartilhamento de notícias e informações sobre meio ambiente nas redes sociais. Expandir informações para diferentes bolhas e ampliar o assunto a ponto de ser impossível de ignorá-lo, é uma tarefa constante de quem se sente preocupado com as mudanças climáticas. Isso é importante, especialmente numa era de excesso de informações e distrações no mundo virtual. Mas se tudo isso ainda parece insuficiente para você, cabe considerar atuar em coletivo.
Um movimento ambientalista ou uma pessoa sozinha, não são capazes de reverter as mudanças climáticas, mas são capazes de fazer mais aquilo que precisa ser feito. A sensação de impotência deixa de ser uma inquietação, para tornar-se ação coletiva. Atuar no Movimento Roessler para Defesa Ambiental, não me trouxe apenas pertencimento. Me trouxe informação, direcionamento, referências, possibilidades de atuação, amigos e um espaço seguro, onde pude colocar minha vontade de fazer mais em prática.
Não podemos ser utópicos em acreditar que vamos sozinhos salvar o planeta. Mas estamos lutando pelo nosso rio, pelos nossos arroios, pela mata atlântica no nosso território, pelas agroflorestas, pela educação ambiental… E estar em coletivo é ver caminhos possíveis se apresentando, é fazer mais que a nossa parte, quando um problema torna-se muito maior do que nossas mentes podem projetar. Esse texto é um convite. Não porque precisamos de pessoas que atuem em prol do meio ambiente (na verdade precisamos, o mundo precisa, mas a ideia não é convencer ninguém), mas porque no Movimento Roessler, essas inquietações que já existem, podem se tornar ações.
E é disso que o mundo precisa. É isso que dá pra fazer.
Carlos Rasch, músico e ativista ecológico integrante do Movimento Roessler.