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Movimento Roessler

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A arte soma!

O Movimento Roessler, além da criatividade, muita teimosia, poucos recursos financeiros, muitíssima insistência, paciência e vontade, sempre se serviu da arte e artistas amigos, colaboradores, para ecoar e potencializar nossa mensagem junto à população e órgãos públicos. Em 1987 o Grupo Valão, composto pelos artistas plásticos Ariadne Decker, Flávio Scholles (in memorian), Mai Bavoso e Rogério Rauber, fizeram uma “performance” chamada Cabeças de Cepa, que era uma crítica e um olhar sensível ao nosso sistema produtivo de calçado, que enriqueceu nossa região e ainda assim podia ser uma ameaça ao meio ambiente (se não regulado) e opressivo aos seus trabalhadores com carga horária insalubre e demais análises. Esta primeira mostra ocorreu na exposição de arte de Mai, na Galeria Contemporânea. Em 1988 foi levada ao 44o Salão Paranaense de Artes Plásticas, assim como à Festa Popular e Cultural “Festerê Uma Vez!”, na Praça XX-NH. Esta, com presença do grupo teatral: Trupe Teatral Sul Tri Azul, que performavam cabeças de cepas enormes com martelinho batendo insistentemente em formas de calçado. Tivemos outro momento importantíssimo, ainda em 1987, quando tivemos uma previsão terrível da morte do nosso Rio dos Sinos em poucos anos, por nossos cientistas. O Grupo Valão e o Movimento Roessler foram autorizados a pintar o muro da Instituição Evangélica, no Calçadão. Oportunidade que não perdemos em retratar o Rio dos Sinos como ele de fato se encontrava: Pintamos o caos, a poluição e o descuido, pois queríamos alertar as pessoas do risco que corríamos. A conclusão da obra foi uma grande polêmica na cidade, onde um cronista querido através do Jornal NH, criticou bravamente a nossa leitura do rio, que poderia ser de acordo com ele, poética, bela e ideal. Esta polêmica toda só ajudou a ampliar o olhar pela causa, a comoção pública e gerou mais muros para que pudéssemos nos expressar e entre o “sim e o não” as pessoas apoiaram enormemente a despoluição do Rio dos Sinos. O Grupo Valão também interviu no debate ecológico da eleição para prefeito de 1988, “servindo a água do rio” aos candidatos. Foram eventos fundamentais para provocar a criação do Comitesinos e gerar outras ações em prol do rio. Tivemos para as crianças o que a arte pode propor de mais divertido: o livro infantil “Peixim e o Rio dos Sinos”, de Rogério Rauber, escritor e ilustrador que circulou em todas as escolas do município com apoio do então secretário de Cultura, o professor Ernest Sarlet. Assim como a peça teatral de Bonecos “A Borboleta que queria morrer”, de Arno Kayser, dirigida, produzida e encenada pela atriz e grupo de Évora Sarmento. Sem contar que na música, a Banda Barata Oriental, Nando Dávila (com a linda Cururuai) e Mauro Kern deixaram sua linda contribuição no show pró Parcão, no beco da Fundação Scheffel, onde os apaixonados pela ideia do parque se reuniram na primavera de 1988. Momento muito importante para efetivação da conquista do Parque Henrique Roessler logo depois. Exemplos estes que somaram, engajaram, educaram e, sobretudo, conversaram com a alma das pessoas que no fundo sabe da importância do cuidado a natureza que é a nossa casa, e somos nós! Débora G. SarmentoArtesã, ex-secretária executiva do Mov. Roessler nos anos 80, quando várias dessas ações se deram.

Projeto FIM-DA-PICADA: será que volta?

Lá pelos anos 90 do século passado, os ambientalistas que militavam no Movimento Roessler tiveram a ideia de promover caminhadas periódicas pela região com objetivo de conhecer melhor o objeto da sua luta – a natureza que nos cerca – indo além dos livros, cursos e palestras, mas interagindo com ela de forma bem mais crocante, em contato com o barro e a poeira, e sob os rigores do clima. No começo, o grupo se reunia em datas pré combinadas, tomava um ônibus interurbano e seguia até próximo a um local de interesse onde ocorriam as caminhadas, mas aos poucos a ideia tomou forma, foi organizada e ganhou um nome: “Projeto Fim-da-Picada”, se consolidando como importante atividade do Movimento Roessler, ao permitir que os participantes tivessem a oportunidade de conhecer locais que certamente nunca visitariam por conta própria, até mesmo por desconhecerem sua existência. Desde então adotou-se o lema “Conhecer para Preservar”. Uma das causas do sucesso foi a simplicidade da proposta: a quem quisesse participar das caminhadas bastaria ir até a Praça 20 de Setembro no último sábado do mês até as oito horas da manhã. Dali saiam rumo a uma parada de ônibus, ou se distribuíam entre os carros disponíveis para seguir por esse meio, se fosse o caso. Não havia taxas a pagar nem eram oferecidas camisetas, carro de apoio, água ou alimentos. Cada um cuidava da sua mochila levando lanche, água, protetor solar, repelente, agasalhos e uns trocados para o ônibus, ou a vaquinha do combustível, e para uma cervejinha durante o retorno. Nas paradas de descanso era usual acontecer um compartilhamento das gostosuras e, eventualmente, alguém poderia ler um texto que julgasse interessante compartilhar com o grupo. Dessa forma, o Movimento Roessler proporcionou aos felizes participantes das caminhadas, por mais de vinte anos, além de conhecimento, o deslumbramento por paisagens inesquecíveis, banhos de rio, lagoas e cachoeiras, frutas colhidas no pé pelos caminhos, muitas horas de boa conversa, troca de experiências ao longo das trilhas e, é claro, alguns perrengues, que se procurava resolver na hora, com bom humor, tolerância e muita responsabilidade, pois não se pode negligenciar os riscos dessa atividade. No começo ainda não existia celular, quanto mais internet para se pesquisar e definir roteiros, sendo necessário recorrer a mapas em papel, livros e o conhecimento de pessoas experientes que com boa vontade davam orientação, porém não raro os trilheiros erravam o caminho, precisando retornar, do que talvez tenha se originado o nome “Fim-da-Picada”. Algumas caminhadas foram feitas com o auxílio de bússola de agulha e, quando surgiram os primeiros GPS Garmin, não foi fácil decifrar como usar aquela coisa. Com o advento da internet, os inscritos na lista de interesse passaram a receber convites explicativos sobre os roteiros por e-mail, e o planejamento passou a ser feito com os recursos de geoprocessamento, através dos aplicativos disponíveis, facilitando enormemente esse trabalho. Já as milhares de imagens registradas pelos participantes, no início foi usando filmes de rolo que precisavam ser substituídos. Depois vieram as primeiras câmeras digitais com memória interna ou de cartão, que foram melhorando até o surgimento dos smartphones e câmeras Go-Pro. Para os mais jovens, que cresceram com tais facilidades, não deve ser fácil imaginar toda aquela complicação. Pode-se dizer que o Fim-da-Picada percorreu quase todos os caminhos, visitando quase todos os mirantes, rios, cachoeiras e povoados históricos em um raio de 100 Km a partir de Novo Hamburgo e, por vezes, ainda mais longe, a exemplo dos Aparatos da Serra, rios Caí, das Antas, Taquari e Maquiné, restinga da Laguna dos Patos, entre outros, permitindo uma grande aquisição de conhecimento e experiência pelos participantes que se revezaram ao longo dos anos em que o projeto funcionou, bastando para isso que fosse possível chegar caminhando aos locais de interesse. Infelizmente, quando a COVID apareceu em 2020, foi necessário interromper a atividade em respeito às comunidades visitadas, visando garantir o isolamento social e evitar a propagação do vírus. Do antigo grupo, alguns se dispersaram ou se envolveram em outras atividades, enquanto outros já não se sentem aptos a caminhar de 15 a 20 Km subindo e descendo as ladeiras tão comuns na nossa região. Entretanto, o projeto Fim-da-Picada não foi extinto; ele está suspenso e aguardando o momento certo para sua retomada, certamente com um grupo renovado, mas aproveitando todo o histórico acumulado ao longo dos anos, para levar outras pessoas a conhecerem os mais belos recantos da nossa região, da melhor forma que existe: caminhando! Quem se habilita? Para matar a saudade ou a curiosidade, acesse: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/user.do?id=1776133 Gerson Guidobono

A origem do Movimento Roessler

O Movimento Roessler surgiu em 16/06/1978. Nesse ano houve um grande acidente no Atlântico Sul com um navio que soltou no mar tonéis com produtos químicos. Esse acidente gerou uma grande mortandade de animais na praia do Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar. O governo militar quis ocultar os fatos atribuindo a mortandade a um fenômeno natural conhecido por maré vermelha. Uma explosão populacional de algas que liberam um produto tóxico na água. A AGAPAN liderou um abaixo-assinado pedindo a revelação da verdade pelas autoridades do Estado do RS. Um grupo de estudantes de ecologia, alunos do Professor Kurt Schmeling (um discípulo de Henrique Roessler) liderou a coleta de assinaturas em Novo Hamburgo. Esse esforço teve tanto sucesso que Magda Renner veio à cidade buscar os abaixo-assinados. Foi quando os estudantes expressaram a ideia de entrarem na AGAPAN. Magda sugeriu que eles criassem seu próprio grupo na cidade. Os alunos gostaram da ideia e recorreram ao Professor Schmeling, que juntou um grupo de amigos da cidade e com essa turma toda criaram o Movimento Roessler para Defesa Ambiental numa reunião na Fundação Evangélica numa sexta-feira à noite. O nome Movimento Roessler para Defesa Ambiental foi uma ideia de José Ferlauto (que também foi o nosso primeiro presidente). Ele era jornalista e tinha feito uma matéria sobre o grande pioneiro da luta ambiental gaúcha. Sua sugestão foi de resgatar o nome dessa figura que, mesmo no Vale do Sinos onde vivera e atuara, andava esquecido.  Esse gesto foi o primeiro movimento de resgate da memória de Roessler em todo o país que abriu caminho para seu reconhecimento em todo país. Sem isso seu nome corria risco de ser esquecido. Fato que sempre foi destacado por Milton Roessler, seu filho, que era muito grato por isso a nossa entidade. Assim começou a história de uma das mais importantes entidades ecológicas do Brasil. Arno KayserEcologista, escritor, engenheiro agrônomo.

E o que dá pra fazer?

Vivemos tempos de emergência climática. O que na década de 90 parecia uma profecia apocalíptica e há três anos parecia um alarmismo exagerado dos ambientalistas, hoje faz parte da nossa realidade e pode ser testemunhado e vivenciado com nossos próprios olhos, como foi o episódio das inundações de 2024 que atingiram o Rio Grande do Sul. As notícias são alarmantes: estamos cada vez mais próximos do ponto de não retorno, o planeta já ultrapassa aquecimento de 1.6ºC desde a era pré-industrial, as geleiras dos polos do planeta estão derretendo, vivenciamos ondas de calor e frio cada vez mais intensos e em meio a essa enxurrada de notícias, tomamos banhos curtos e separamos nosso lixo, com a sensação de impotência avassaladora, enquanto setores do agronegócio desmatam milhares de hectares de florestas nativas para monocultura e bilionários passeiam em seus jatinhos particulares, emitindo toneladas de gás carbônico na atmosfera por dia. Além da sensação de impotência, ocorre a sensação de amortecimento. Estamos caminhando para condições inóspitas para a vida humana na terra, mas ninguém parece se importar muito com isso. No entanto, apesar da sensação, talvez não estejamos tão sozinhos assim.  Conforme a quarta edição da pesquisa “Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros”, realizada em 2025 pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, 93% dos brasileiros está pelo menos um pouco preocupado com o meio ambiente. 50% muito preocupados, 29% preocupados e 14% um pouco preocupados. 76% separam seu lixo para reciclagem. 63% já compartilhou informações ou notícias em defesa do meio ambiente. 45% votou em algum político pelas suas propostas para defesa do meio ambiente e 19% participou de alguma manifestação ou abaixo assinado sobre mudança climática. Analisando esses dados, me parece que não há uma falta de consciência ou preocupação em relação ao meio ambiente, mas falta saber como agir e onde agir. Foi inviável para a maioria das pessoas comparecer à COP 30 ou manifestar-se contra a privatização do Rio Tapajós no Pará, mas o que podemos fazer aqui e agora, no nosso local e território? Por mais que seja pequeno, separar seu lixo é importante. Evitar pequenos desmatamentos e o corte predatório de árvores, é importante. Uso consciente dos recursos, é importante. Cada um fazendo a sua pequena parte, o conjunto de ações se torna grande.  O mesmo em relação ao compartilhamento de notícias e informações sobre meio ambiente nas redes sociais. Expandir informações para diferentes bolhas e ampliar o assunto a ponto de ser impossível de ignorá-lo, é uma tarefa constante de quem se sente preocupado com as mudanças climáticas. Isso é importante, especialmente numa era de excesso de informações e distrações no mundo virtual. Mas se tudo isso ainda parece insuficiente para você, cabe considerar atuar em coletivo. Um movimento ambientalista ou uma pessoa sozinha, não são capazes de reverter as mudanças climáticas, mas são capazes de fazer mais aquilo que precisa ser feito. A sensação de impotência deixa de ser uma inquietação, para tornar-se ação coletiva. Atuar no Movimento Roessler para Defesa Ambiental, não me trouxe apenas pertencimento. Me trouxe informação, direcionamento, referências, possibilidades de atuação, amigos e um espaço seguro, onde pude colocar minha vontade de fazer mais em prática. Não podemos ser utópicos em acreditar que vamos sozinhos salvar o planeta. Mas estamos lutando pelo nosso rio, pelos nossos arroios, pela mata atlântica no nosso território, pelas agroflorestas, pela educação ambiental… E estar em coletivo é ver caminhos possíveis se apresentando, é fazer mais que a nossa parte, quando um problema torna-se muito maior do que nossas mentes podem projetar. Esse texto é um convite. Não porque precisamos de pessoas que atuem em prol do meio ambiente (na verdade precisamos, o mundo precisa, mas a ideia não é convencer ninguém), mas porque no Movimento Roessler, essas inquietações que já existem, podem se tornar ações.  E é disso que o mundo precisa. É isso que dá pra fazer.  Carlos Rasch, músico e ativista ecológico integrante do Movimento Roessler.

O futuro é ancestral

Apesar de este texto ter o título de um pequeno, e ao mesmo tempo, gigante livro de Ailton Krenak, começo por uma citação que é comumente atribuída a Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Não posso afirmar que essa frase tenha sido realmente dita por Einstein, mas, seja como for, quer dizer muita coisa, pois as descobertas do físico alemão abriram caminho para a criação de armas nucleares. E se qualquer nação que detenha tamanho poder bélico resolvesse usá-las, tal profecia sobre o fim do mundo se tornaria um grande vislumbre da realidade. Nós vivemos no planeta Terra, lar de muitas espécies, incluindo a espécie humana, aquela que está destruindo a própria casa. Nego Bispo dizia: “eu não sou humano”. Dizia que indígenas e quilombolas são alheios a esse conceito de humanidade, que tem como propósito acumular, explorar, ferir, matar e destruir. Para indígenas e quilombolas, a abundância está em proteger, cuidar, zelar, defender e compartilhar saberes e cuidados com a terra, que é de onde viemos e para onde voltaremos. Para Nego Bispo, a vida é composta por uma circularidade de começo, meio e começo! Nesse meio do caminho, a terra nos dá tudo. Mas Nego Bispo nos ensinou que “a terra dá e a terra quer”. Para que ela cuide de nós, precisamos cuidar dela. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a terra”. Krenak nos diz que “o futuro é ancestral”. E se o futuro é ancestral, precisamos ouvir as “ideias para adiar o fim do mundo” daqueles que vieram antes de nós. Precisamos ser capazes de ouvir e reproduzir as histórias de quem luta pela soberania da terra há muito tempo, pois o pensador indígena nos ensina que se formos capazes de continuar contando histórias estaremos adiando o fim do mundo. Por isso, se o mundo se encaminha para um colapso socioambiental, precisamos ouvir quem há milênios segura “a queda do céu”, como nos diz Davi Kopenawa. O cuidado com a vida é uma herança passada, pelos povos originários, de geração em geração e a todos aqueles com quem dividimos o planeta. Os principais nomes do ambientalismo também escutaram essa lição e há muito tempo vêm construindo um legado de preservação inspirado na sabedoria ancestral. Há quase cinco décadas, o Movimento Roessler vem renovando seu compromisso de lutar pela maior causa de todas: a proteção e a defesa da vida, em todas as suas formas de ser. Para finalizar, de forma circular, como aprendemos com Nego Bispo, gostaria de parafrasear Einstein e dizer que: não sei como será o futuro do mundo, só sei que ele será ancestral. Einstein acreditava que se a humanidade gastasse seu último e mais poderoso recurso bélico voltaríamos para o início das civilizações. Mas nós, ambientalistas, protetores e guardiões da vida, indígenas e quilombolas, por outro lado, acreditamos que a solução para que não venhamos a exaurir nossos recursos naturais está na circularidade de seguir em frente com as ferramentas ensinadas por quem caminha em outro tempo, e nesse tempo nos ensina a olhar para trás. Referências: BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Luana Rosa, Presidenta Movimento Roessler, Bióloga e Doutora em Desenvolvimento Rural

O futuro é ancestral

Apesar de este texto ter o título de um pequeno, e ao mesmo tempo, gigante livro de Ailton Krenak, começo por uma citação que é comumente atribuída a Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Não posso afirmar que essa frase tenha sido realmente dita por Einstein, mas, seja como for, quer dizer muita coisa, pois as descobertas do físico alemão abriram caminho para a criação de armas nucleares. E se qualquer nação que detenha tamanho poder bélico resolvesse usá-las, tal profecia sobre o fim do mundo se tornaria um grande vislumbre da realidade. Nós vivemos no planeta Terra, lar de muitas espécies, incluindo a espécie humana, aquela que está destruindo a própria casa. Nego Bispo dizia: “eu não sou humano”. Dizia que indígenas e quilombolas são alheios a esse conceito de humanidade, que tem como propósito acumular, explorar, ferir, matar e destruir. Para indígenas e quilombolas, a abundância está em proteger, cuidar, zelar, defender e compartilhar saberes e cuidados com a terra, que é de onde viemos e para onde voltaremos. Para Nego Bispo, a vida é composta por uma circularidade de começo, meio e começo! Nesse meio do caminho, a terra nos dá tudo. Mas Nego Bispo nos ensinou que “a terra dá e a terra quer”. Para que ela cuide de nós, precisamos cuidar dela. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a terra”. Krenak nos diz que “o futuro é ancestral”. E se o futuro é ancestral, precisamos ouvir as “ideias para adiar o fim do mundo” daqueles que vieram antes de nós. Precisamos ser capazes de ouvir e reproduzir as histórias de quem luta pela soberania da terra há muito tempo, pois o pensador indígena nos ensina que se formos capazes de continuar contando histórias estaremos adiando o fim do mundo. Por isso, se o mundo se encaminha para um colapso socioambiental, precisamos ouvir quem há milênios segura “a queda do céu”, como nos diz Davi Kopenawa. O cuidado com a vida é uma herança passada, pelos povos originários, de geração em geração e a todos aqueles com quem dividimos o planeta. Os principais nomes do ambientalismo também escutaram essa lição e há muito tempo vêm construindo um legado de preservação inspirado na sabedoria ancestral. Há quase cinco décadas, o Movimento Roessler vem renovando seu compromisso de lutar pela maior causa de todas: a proteção e a defesa da vida, em todas as suas formas de ser. Para finalizar, de forma circular, como aprendemos com Nego Bispo, gostaria de parafrasear Einstein e dizer que: não sei como será o futuro do mundo, só sei que ele será ancestral. Einstein acreditava que se a humanidade gastasse seu último e mais poderoso recurso bélico voltaríamos para o início das civilizações. Mas nós, ambientalistas, protetores e guardiões da vida, indígenas e quilombolas, por outro lado, acreditamos que a solução para que não venhamos a exaurir nossos recursos naturais está na circularidade de seguir em frente com as ferramentas ensinadas por quem caminha em outro tempo, e nesse tempo nos ensina a olhar para trás. Referências: BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Luana Rosa, Presidenta Movimento Roessler, Bióloga e Doutora em Desenvolvimento Rural

A participação do Movimento Roessler no Movimento Ecológico Gaúcho, Brasileiro e Internacional

O Movimento Roessler começou sua atuação no Vale do Sinos e pela cidade de Novo Hamburgo.  Mas aos poucos foi expandindo seu campo de atuação, sempre fiel ao espírito de seu patrono que também atuou em todo o Rio Grande do Sul e, com seus escritos, atingiu outros lugares do Brasil. Ainda nos anos 80 começamos um trabalho em prol do Rio dos Sinos com a UPAN que resultou na criação do Comitesinos e várias ações em prol do rio. A partir daí a entidade começou a participar dos Encontros Estaduais de Entidades Ecológicas. Eventos que reuniam diversas entidades no Estado. Em 1999 o Encontro aconteceu em Novo Hamburgo, no Monte Tabor, no alto do Morro Dois Irmãos. Um pouco antes, em Novo Hamburgo, em 1990, o Movimento organizou, no Centro Municipal de Cultura, o evento que fundou a Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (APEDEMA-RS). Entidade que congrega as entidades do Estado que tem como objetivo principal a defesa do meio ambiente. Ela atua organizando lutas e realizando eventos de articulação e intervenção em fóruns representativos. A entidade foi membra da direção da APEDEMA em mais de uma gestão. A partir daí passamos a atuar nos encontros de entidades da região sul do Brasil indo a vários encontros no PR, SC e RS. Por essa atuação também fomos indicados para exercer mandatos no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS (CONSEMA-RS) em várias gestões e no Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), representando as entidades ecológicas gaúchas e da região sul. O Movimento Roessler participou do 1º Encontro Latino Americano Anti-nuclear em Mar del Plata – Argentina e no Encontro de Agricultura Ecológica em Cochabamba – Bolívia, em 1989, e de vários Encontros de Agricultura Alternativa e de Comunidades Rurais. Em 1990 ajudamos a organizar o 2º Encontro Latino Americano Anti-nuclear em Porto Alegre. Nesse evento o Roessler acolheu o Secretário para Assuntos Internacionais do Partido Verde Alemão que veio para o Encontro. Ainda em nível nacional, o Roessler participou, em Brasília, de um encontro promovido pela Fundação Francisco, para pensar a atuação do Movimento Ecológico Brasileiro após a ECO 92. Na ECO 92 e na RIO mais 20 o Roessler também se fez presente com vários de seus militantes. Nos anos 2000 ajudamos a organizar os Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre. Especialmente os Acampamentos da Juventude e a vinda de Frijof Capra em 2002. O Roessler atuou de 1998 a 2002 como representante das ONGs gaúchas na Secretaria Executiva do Programa Pró-Guaíba, em especial na recuperação de APPs e no Planejamento Participativo do Programa. No Vale do Sinos também tivemos uma forte atuação na Comissão de Educação Ambiental do Comitesinos organizando cursos de capacitação e eventos. Também ajudamos nos projetos Monalisa e no desenvolvimento do Projeto VerdeSinos. Nesse último, atuamos cada vez mais na sua organização e condução. Além disto, sempre estivemos representando as ONGs ambientalistas no plenário do Comitesinos desde sua primeira gestão. Por conta disso, já exercemos duas vezes a presidência e três vezes a vice-presidência do Comitê. Por todas essas atuações o Movimento Roessler é uma das entidades mais respeitadas não só no âmbito local, mas também nas esferas estadual, nacional e até internacional. Arno Kayser Ecologista, escritor, engenheiro agrônomo Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

VerdeSinos Cidades-esponja avança na estruturação técnica e mobilização territorial

O VerdeSinos Cidades-esponja consolidou seu primeiro quadrimestre de execução, de julho a outubro de 2025, com avanços estratégicos nas frentes técnica, institucional, educativa e socioambiental, fortalecendo as bases para a implementação das ações previstas na quinta etapa. O projeto é realizado pelo Comitesinos e Movimento Roessler, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. No campo administrativo e de governança, o período foi marcado por intensas tratativas com a Petrobras para adequações metodológicas, reprogramação de rubricas e definição de procedimentos operacionais. Destacam-se a autorização para contratação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) como serviço de terceiros para as ações de pesquisa em áreas úmidas e a formalização da EMATER/RS-Ascar como consultora técnica, garantindo segurança jurídica e conformidade financeira para o início das atividades de campo. No eixo de conservação das áreas úmidas, foram realizadas reuniões de alinhamento técnico e planejamento das campanhas de monitoramento, com definição de metodologia, cronograma e aquisição de equipamentos laboratoriais, incluindo sonda multiparâmetros. As ações preparatórias asseguram a padronização dos dados e a qualidade científica das análises que serão realizadas ao longo do projeto. Recuperação de áreas verdes — De acordo com a coordenadora do VerdeSinos, Kely Boscato, as ações de recomposição da mata ciliar avançaram com planejamento técnico, visitas de campo e articulação institucional no município de Três Coroas. O quadrimestre culminou em uma grande ação de plantio, realizada em outubro, com a recuperação de aproximadamente 4.000 m² de área, por meio do plantio de 700 mudas de espécies nativas, mobilizando 85 voluntários de diferentes municípios da bacia. Na frente de agroflorestas em comunidades escolares e ambientes urbanos, houve articulação com centros de educação ambiental, secretarias municipais e extensionistas, além do início da instalação de estufas e viveiros-escola nos municípios de Sapucaia do Sul, Novo Hamburgo e Santo Antônio da Patrulha. A equipe também se concentrou no planejamento da cartilha digital Cultivo em Espaço Urbano, que sistematizará as experiências práticas do projeto. A educação ambiental teve forte presença territorial. Foram realizadas capacitações, palestras e participações em eventos regionais, como a FEMICTEC, reuniões do Comitesinos, Semana Interamericana da Água e encontros com educadores e instituições parceiras. Ao todo, 1.134 pessoas foram diretamente alcançadas pelas ações educativas e de mobilização no quadrimestre. Residência esponja modelo será construída em Canoas No primeiro quadrimestre, o projeto também avançou na construção do Módulo Sustentável – Residência Esponja Modelo, com visitas técnicas, estudos preliminares, reuniões de alinhamento com a prefeitura de Canoas e validação técnica junto à Petrobras. A unidade será construída no Parque Getúlio Vargas, com o desenvolvimento de práticas focadas em soluções baseadas na natureza no meio urbano. O objetivo é apresentar alternativas para enfrentar eventos climáticos extremos, como enchentes, absorvendo, filtrando e devolvendo a água da chuva ao solo. Estrutura da unidade sustentável Educação ambiental — Na área de gestão de resíduos sólidos e educação ambiental, destacam-se as articulações para implantação de ecopontos em Três Coroas e o início das ações da Roda de Conhecimento Ambiental na Aldeia Pindoty, com encontros participativos, oficinas práticas e integração de saberes tradicionais e técnicos. Vale ressaltar que o conjunto das ações realizadas neste primeiro quadrimestre evidencia o papel do Projeto VerdeSinos Cidades-esponja como articulador de soluções baseadas na natureza, educação ambiental e participação social, consolidando as condições técnicas, institucionais e territoriais para a ampliação das ações nos próximos períodos.

VerdeSinos e Movimento Roessler desenvolvem atividades socioambientais com guaranis da Aldeia Pindoty

Com encontros mensais da Roda de Conhecimento Ambiental, desde o início do projeto VerdeSinos etapa 5, em agosto passado, indígenas da Aldeia Pindoty, do município de Riozinho, desenvolvem ações socioambientais. Neste primeiro mês de 2026, os guaranis receberam lixeiras e orientações para a correta separação e destinação dos resíduos sólidos. Os encontros são participativos, com oficinas práticas e integração de saberes tradicionais e técnicos. Cada uma das cinco famílias recebeu lixeiras para separar lixo seco, orgânico, cinza do fogo, casca de ovo e bombonas para armazenamento do óleo de cozinha usado. Através do projeto VerdeSinos, realizado pelo Comitesinos e Movimento Roessler, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, a comunidade já construiu uma composteira que colaborará com a produção de adubo para a horta a ser implementada. Neste encontro também foram definidas as mudas de árvores frutíferas que serão plantadas no pomar, conversado sobre a escolha dos equipamentos rurais, como ferramentas manuais e tratorito, que ajudarão na execução da agrofloresta e identificado o local para a horta de verduras e ervas. A reserva indígena conta com 24 hectares onde residem cinco famílias formadas por guaranis que vieram de Santa Catarina, em 2012, e se estabeleceram ali. Conforme o cacique Felipe Oscar Brizoela, é preciso compreender o momento histórico que se vive e saber equilibrar a realidade de uma aldeia urbana com a manutenção da cultura guarani, com a transmissão da cultura ancestral para seus descendentes. O líder também reforça a importância de valorizar o acesso às ferramentas, mudas e sementes, além de todo apoio do VerdeSinos, enquanto mantém a tradição e verbaliza esses ensinamentos na língua guarani para que todos prestem atenção. A bióloga Virgínia Koch, que atua há 26 anos com os indígenas daquele território, ressalta que os juruá – termo indígena para se referir ao homem branco – têm muito a aprender com os indígenas. “As aldeias urbanas são espaços riquíssimos para essas trocas de saberes e contribuição com o planeta, com cada um fazendo a sua parte”. Para Kely Boscato, coordenadora do VerdeSinos, as ações realizadas e as previstas evidenciam o papel do Projeto VerdeSinos: Cidades-Esponja como articulador de soluções baseadas na natureza. “Focamos na educação ambiental e na participação social, consolidando as condições técnicas, institucionais e territoriais para a construção de um mundo melhor”. A Aldeia Pindoty conta com uma escola guarani, uma casa de rezo, plantação de milho guarani – com grãos nas cores amarelo, preto, branco e azul, cultivo de erva-mate e criação de porcos e galinhas. Cátia Cylene

Manifestação dos Comitês de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas sobre as enchentes

O Rio Grande do Sul passa, neste momento, pelo maior desastre ambiental de sua história. Enchentes devastadoras ocorrem após períodos de estiagem, revelando uma crise de gestão hídrica a ser enfrentada pelo Estado. É importante reconhecer que chegamos a este ponto devido à falta de aproveitamento e implementação plena do Sistema Estadual de Recursos Hídricos – SERH, criado em 1994 após mobilização popular. Tentativas de se propor outro arranjo institucional diferente do que o definido pelo SERH na Lei Estadual Nº 10.350/94 que estão circulando na mídia neste momento são um desrespeito aos mais de 30 anos de ativismo da sociedade gaúcha, governo e agentes econômicos para a valorização dos comitês de bacia e da própria legislação. O SERH foi concebido para proporcionar uma gestão integrada e eficiente dos recursos hídricos por meio dos Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo a participação democrática de todos os setores da sociedade, agentes econômicos e governo. No entanto, apesar de seu potencial, o sistema nunca foi plenamente implantado. A não implementação das agências de bacia e da cobrança pelo uso dos recursos hídricos, componentes fundamentais desse sistema, resultou em uma gestão fragmentada, desarticulada e ineficaz, incapaz de planejar e executar as ações necessárias para reduzir vulnerabilidades e, assim, mitigar os efeitos de eventos como o que enfrentamos. Os Comitês de Bacia Hidrográfica, com sua composição diversa e representativa, têm o potencial de harmonizar os interesses ambientais e econômicos, promovendo o desenvolvimento mais sustentável e a proteção dos recursos hídricos. No entanto, a falta de suporte institucional e financeiro dificulta o desempenho pleno das funções dos Comitês de Bacia Hidrográfica. A cobrança pelo uso da água não apenas financiaria parte das ações necessárias, como também incentivaria o uso racional por parte dos agentes econômicos, reduzindo a pressão sobre os recursos naturais. Os eventos extremos que vivenciamos são um alerta urgente para a necessidade de uma gestão hídrica eficiente e integrada. A implementação total do SERH é essencial para preparar o Estado para o enfrentamento dos desafios climáticos atuais e futuros. Precisamos de um planejamento com visão de Bacia Hidrográfica, capaz de entender a dinâmica dos impactos e tomar decisões que protejam toda a população, especialmente os mais vulneráveis. É fundamental que os grupos de trabalho municipais, estaduais e federais que venham a ser formados para a reconstrução das áreas afetadas contem com representantes dos Comitês de Bacia Hidrográfica, para que os trabalhos sigam a legislação e as atribuições destes comitês. Os comitês de bacia devem ser respeitados e considerados em seus papéis legais inclusive na constituição do Programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Estado do Rio Grande do Sul. Na inexistência de uma Agência de Região Hidrográfica, os consórcios surgem como oportunidade essencial no processo de recuperação e até de implementação da cobrança pelo uso da água à luz dos planos de bacia e de suas necessárias atualizações frente à emergência climática. Apelamos às autoridades municipais, do Estado e da União, assim como à sociedade gaúcha e brasileira, para que reconheçam a importância de implementar todas as ferramentas previstas no Sistema Estadual de Recursos Hídricos. É imperativo apoiar os Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo os recursos e a estrutura necessária para que possam desempenhar seu papel de forma eficaz. Somente com uma gestão integrada e democrática dos recursos hídricos poderemos enfrentar os desafios climáticos e assegurar um futuro sustentável para o Rio Grande do Sul. Viviane Feijó Machado – Presidente do Comitê Sinos Rafael Altenhofen – Presidente do Comitê Caí Sérgio Cardoso – Presidente do Comitê Gravatahy