Movimento Roessler

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O futuro é ancestral

Apesar de este texto ter o título de um pequeno, e ao mesmo tempo, gigante livro de Ailton Krenak, começo por uma citação que é comumente atribuída a Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Não posso afirmar que essa frase tenha sido realmente dita por Einstein, mas, seja como for, quer dizer muita coisa, pois as descobertas do físico alemão abriram caminho para a criação de armas nucleares. E se qualquer nação que detenha tamanho poder bélico resolvesse usá-las, tal profecia sobre o fim do mundo se tornaria um grande vislumbre da realidade. Nós vivemos no planeta Terra, lar de muitas espécies, incluindo a espécie humana, aquela que está destruindo a própria casa. Nego Bispo dizia: “eu não sou humano”. Dizia que indígenas e quilombolas são alheios a esse conceito de humanidade, que tem como propósito acumular, explorar, ferir, matar e destruir. Para indígenas e quilombolas, a abundância está em proteger, cuidar, zelar, defender e compartilhar saberes e cuidados com a terra, que é de onde viemos e para onde voltaremos. Para Nego Bispo, a vida é composta por uma circularidade de começo, meio e começo! Nesse meio do caminho, a terra nos dá tudo. Mas Nego Bispo nos ensinou que “a terra dá e a terra quer”. Para que ela cuide de nós, precisamos cuidar dela. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a terra”. Krenak nos diz que “o futuro é ancestral”. E se o futuro é ancestral, precisamos ouvir as “ideias para adiar o fim do mundo” daqueles que vieram antes de nós. Precisamos ser capazes de ouvir e reproduzir as histórias de quem luta pela soberania da terra há muito tempo, pois o pensador indígena nos ensina que se formos capazes de continuar contando histórias estaremos adiando o fim do mundo. Por isso, se o mundo se encaminha para um colapso socioambiental, precisamos ouvir quem há milênios segura “a queda do céu”, como nos diz Davi Kopenawa. O cuidado com a vida é uma herança passada, pelos povos originários, de geração em geração e a todos aqueles com quem dividimos o planeta. Os principais nomes do ambientalismo também escutaram essa lição e há muito tempo vêm construindo um legado de preservação inspirado na sabedoria ancestral. Há quase cinco décadas, o Movimento Roessler vem renovando seu compromisso de lutar pela maior causa de todas: a proteção e a defesa da vida, em todas as suas formas de ser. Para finalizar, de forma circular, como aprendemos com Nego Bispo, gostaria de parafrasear Einstein e dizer que: não sei como será o futuro do mundo, só sei que ele será ancestral. Einstein acreditava que se a humanidade gastasse seu último e mais poderoso recurso bélico voltaríamos para o início das civilizações. Mas nós, ambientalistas, protetores e guardiões da vida, indígenas e quilombolas, por outro lado, acreditamos que a solução para que não venhamos a exaurir nossos recursos naturais está na circularidade de seguir em frente com as ferramentas ensinadas por quem caminha em outro tempo, e nesse tempo nos ensina a olhar para trás. Referências: BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Luana Rosa, Presidenta Movimento Roessler, Bióloga e Doutora em Desenvolvimento Rural

O futuro é ancestral

Apesar de este texto ter o título de um pequeno, e ao mesmo tempo, gigante livro de Ailton Krenak, começo por uma citação que é comumente atribuída a Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Não posso afirmar que essa frase tenha sido realmente dita por Einstein, mas, seja como for, quer dizer muita coisa, pois as descobertas do físico alemão abriram caminho para a criação de armas nucleares. E se qualquer nação que detenha tamanho poder bélico resolvesse usá-las, tal profecia sobre o fim do mundo se tornaria um grande vislumbre da realidade. Nós vivemos no planeta Terra, lar de muitas espécies, incluindo a espécie humana, aquela que está destruindo a própria casa. Nego Bispo dizia: “eu não sou humano”. Dizia que indígenas e quilombolas são alheios a esse conceito de humanidade, que tem como propósito acumular, explorar, ferir, matar e destruir. Para indígenas e quilombolas, a abundância está em proteger, cuidar, zelar, defender e compartilhar saberes e cuidados com a terra, que é de onde viemos e para onde voltaremos. Para Nego Bispo, a vida é composta por uma circularidade de começo, meio e começo! Nesse meio do caminho, a terra nos dá tudo. Mas Nego Bispo nos ensinou que “a terra dá e a terra quer”. Para que ela cuide de nós, precisamos cuidar dela. “A terra não nos pertence, nós é que pertencemos a terra”. Krenak nos diz que “o futuro é ancestral”. E se o futuro é ancestral, precisamos ouvir as “ideias para adiar o fim do mundo” daqueles que vieram antes de nós. Precisamos ser capazes de ouvir e reproduzir as histórias de quem luta pela soberania da terra há muito tempo, pois o pensador indígena nos ensina que se formos capazes de continuar contando histórias estaremos adiando o fim do mundo. Por isso, se o mundo se encaminha para um colapso socioambiental, precisamos ouvir quem há milênios segura “a queda do céu”, como nos diz Davi Kopenawa. O cuidado com a vida é uma herança passada, pelos povos originários, de geração em geração e a todos aqueles com quem dividimos o planeta. Os principais nomes do ambientalismo também escutaram essa lição e há muito tempo vêm construindo um legado de preservação inspirado na sabedoria ancestral. Há quase cinco décadas, o Movimento Roessler vem renovando seu compromisso de lutar pela maior causa de todas: a proteção e a defesa da vida, em todas as suas formas de ser. Para finalizar, de forma circular, como aprendemos com Nego Bispo, gostaria de parafrasear Einstein e dizer que: não sei como será o futuro do mundo, só sei que ele será ancestral. Einstein acreditava que se a humanidade gastasse seu último e mais poderoso recurso bélico voltaríamos para o início das civilizações. Mas nós, ambientalistas, protetores e guardiões da vida, indígenas e quilombolas, por outro lado, acreditamos que a solução para que não venhamos a exaurir nossos recursos naturais está na circularidade de seguir em frente com as ferramentas ensinadas por quem caminha em outro tempo, e nesse tempo nos ensina a olhar para trás. Referências: BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Luana Rosa, Presidenta Movimento Roessler, Bióloga e Doutora em Desenvolvimento Rural

A participação do Movimento Roessler no Movimento Ecológico Gaúcho, Brasileiro e Internacional

O Movimento Roessler começou sua atuação no Vale do Sinos e pela cidade de Novo Hamburgo.  Mas aos poucos foi expandindo seu campo de atuação, sempre fiel ao espírito de seu patrono que também atuou em todo o Rio Grande do Sul e, com seus escritos, atingiu outros lugares do Brasil. Ainda nos anos 80 começamos um trabalho em prol do Rio dos Sinos com a UPAN que resultou na criação do Comitesinos e várias ações em prol do rio. A partir daí a entidade começou a participar dos Encontros Estaduais de Entidades Ecológicas. Eventos que reuniam diversas entidades no Estado. Em 1999 o Encontro aconteceu em Novo Hamburgo, no Monte Tabor, no alto do Morro Dois Irmãos. Um pouco antes, em Novo Hamburgo, em 1990, o Movimento organizou, no Centro Municipal de Cultura, o evento que fundou a Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (APEDEMA-RS). Entidade que congrega as entidades do Estado que tem como objetivo principal a defesa do meio ambiente. Ela atua organizando lutas e realizando eventos de articulação e intervenção em fóruns representativos. A entidade foi membra da direção da APEDEMA em mais de uma gestão. A partir daí passamos a atuar nos encontros de entidades da região sul do Brasil indo a vários encontros no PR, SC e RS. Por essa atuação também fomos indicados para exercer mandatos no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS (CONSEMA-RS) em várias gestões e no Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), representando as entidades ecológicas gaúchas e da região sul. O Movimento Roessler participou do 1º Encontro Latino Americano Anti-nuclear em Mar del Plata – Argentina e no Encontro de Agricultura Ecológica em Cochabamba – Bolívia, em 1989, e de vários Encontros de Agricultura Alternativa e de Comunidades Rurais. Em 1990 ajudamos a organizar o 2º Encontro Latino Americano Anti-nuclear em Porto Alegre. Nesse evento o Roessler acolheu o Secretário para Assuntos Internacionais do Partido Verde Alemão que veio para o Encontro. Ainda em nível nacional, o Roessler participou, em Brasília, de um encontro promovido pela Fundação Francisco, para pensar a atuação do Movimento Ecológico Brasileiro após a ECO 92. Na ECO 92 e na RIO mais 20 o Roessler também se fez presente com vários de seus militantes. Nos anos 2000 ajudamos a organizar os Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre. Especialmente os Acampamentos da Juventude e a vinda de Frijof Capra em 2002. O Roessler atuou de 1998 a 2002 como representante das ONGs gaúchas na Secretaria Executiva do Programa Pró-Guaíba, em especial na recuperação de APPs e no Planejamento Participativo do Programa. No Vale do Sinos também tivemos uma forte atuação na Comissão de Educação Ambiental do Comitesinos organizando cursos de capacitação e eventos. Também ajudamos nos projetos Monalisa e no desenvolvimento do Projeto VerdeSinos. Nesse último, atuamos cada vez mais na sua organização e condução. Além disto, sempre estivemos representando as ONGs ambientalistas no plenário do Comitesinos desde sua primeira gestão. Por conta disso, já exercemos duas vezes a presidência e três vezes a vice-presidência do Comitê. Por todas essas atuações o Movimento Roessler é uma das entidades mais respeitadas não só no âmbito local, mas também nas esferas estadual, nacional e até internacional. Arno Kayser Ecologista, escritor, engenheiro agrônomo Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

VerdeSinos Cidades-esponja avança na estruturação técnica e mobilização territorial

O VerdeSinos Cidades-esponja consolidou seu primeiro quadrimestre de execução, de julho a outubro de 2025, com avanços estratégicos nas frentes técnica, institucional, educativa e socioambiental, fortalecendo as bases para a implementação das ações previstas na quinta etapa. O projeto é realizado pelo Comitesinos e Movimento Roessler, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. No campo administrativo e de governança, o período foi marcado por intensas tratativas com a Petrobras para adequações metodológicas, reprogramação de rubricas e definição de procedimentos operacionais. Destacam-se a autorização para contratação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) como serviço de terceiros para as ações de pesquisa em áreas úmidas e a formalização da EMATER/RS-Ascar como consultora técnica, garantindo segurança jurídica e conformidade financeira para o início das atividades de campo. No eixo de conservação das áreas úmidas, foram realizadas reuniões de alinhamento técnico e planejamento das campanhas de monitoramento, com definição de metodologia, cronograma e aquisição de equipamentos laboratoriais, incluindo sonda multiparâmetros. As ações preparatórias asseguram a padronização dos dados e a qualidade científica das análises que serão realizadas ao longo do projeto. Recuperação de áreas verdes — De acordo com a coordenadora do VerdeSinos, Kely Boscato, as ações de recomposição da mata ciliar avançaram com planejamento técnico, visitas de campo e articulação institucional no município de Três Coroas. O quadrimestre culminou em uma grande ação de plantio, realizada em outubro, com a recuperação de aproximadamente 4.000 m² de área, por meio do plantio de 700 mudas de espécies nativas, mobilizando 85 voluntários de diferentes municípios da bacia. Na frente de agroflorestas em comunidades escolares e ambientes urbanos, houve articulação com centros de educação ambiental, secretarias municipais e extensionistas, além do início da instalação de estufas e viveiros-escola nos municípios de Sapucaia do Sul, Novo Hamburgo e Santo Antônio da Patrulha. A equipe também se concentrou no planejamento da cartilha digital Cultivo em Espaço Urbano, que sistematizará as experiências práticas do projeto. A educação ambiental teve forte presença territorial. Foram realizadas capacitações, palestras e participações em eventos regionais, como a FEMICTEC, reuniões do Comitesinos, Semana Interamericana da Água e encontros com educadores e instituições parceiras. Ao todo, 1.134 pessoas foram diretamente alcançadas pelas ações educativas e de mobilização no quadrimestre. Residência esponja modelo será construída em Canoas No primeiro quadrimestre, o projeto também avançou na construção do Módulo Sustentável – Residência Esponja Modelo, com visitas técnicas, estudos preliminares, reuniões de alinhamento com a prefeitura de Canoas e validação técnica junto à Petrobras. A unidade será construída no Parque Getúlio Vargas, com o desenvolvimento de práticas focadas em soluções baseadas na natureza no meio urbano. O objetivo é apresentar alternativas para enfrentar eventos climáticos extremos, como enchentes, absorvendo, filtrando e devolvendo a água da chuva ao solo. Estrutura da unidade sustentável Educação ambiental — Na área de gestão de resíduos sólidos e educação ambiental, destacam-se as articulações para implantação de ecopontos em Três Coroas e o início das ações da Roda de Conhecimento Ambiental na Aldeia Pindoty, com encontros participativos, oficinas práticas e integração de saberes tradicionais e técnicos. Vale ressaltar que o conjunto das ações realizadas neste primeiro quadrimestre evidencia o papel do Projeto VerdeSinos Cidades-esponja como articulador de soluções baseadas na natureza, educação ambiental e participação social, consolidando as condições técnicas, institucionais e territoriais para a ampliação das ações nos próximos períodos.

VerdeSinos e Movimento Roessler desenvolvem atividades socioambientais com guaranis da Aldeia Pindoty

Com encontros mensais da Roda de Conhecimento Ambiental, desde o início do projeto VerdeSinos etapa 5, em agosto passado, indígenas da Aldeia Pindoty, do município de Riozinho, desenvolvem ações socioambientais. Neste primeiro mês de 2026, os guaranis receberam lixeiras e orientações para a correta separação e destinação dos resíduos sólidos. Os encontros são participativos, com oficinas práticas e integração de saberes tradicionais e técnicos. Cada uma das cinco famílias recebeu lixeiras para separar lixo seco, orgânico, cinza do fogo, casca de ovo e bombonas para armazenamento do óleo de cozinha usado. Através do projeto VerdeSinos, realizado pelo Comitesinos e Movimento Roessler, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, a comunidade já construiu uma composteira que colaborará com a produção de adubo para a horta a ser implementada. Neste encontro também foram definidas as mudas de árvores frutíferas que serão plantadas no pomar, conversado sobre a escolha dos equipamentos rurais, como ferramentas manuais e tratorito, que ajudarão na execução da agrofloresta e identificado o local para a horta de verduras e ervas. A reserva indígena conta com 24 hectares onde residem cinco famílias formadas por guaranis que vieram de Santa Catarina, em 2012, e se estabeleceram ali. Conforme o cacique Felipe Oscar Brizoela, é preciso compreender o momento histórico que se vive e saber equilibrar a realidade de uma aldeia urbana com a manutenção da cultura guarani, com a transmissão da cultura ancestral para seus descendentes. O líder também reforça a importância de valorizar o acesso às ferramentas, mudas e sementes, além de todo apoio do VerdeSinos, enquanto mantém a tradição e verbaliza esses ensinamentos na língua guarani para que todos prestem atenção. A bióloga Virgínia Koch, que atua há 26 anos com os indígenas daquele território, ressalta que os juruá – termo indígena para se referir ao homem branco – têm muito a aprender com os indígenas. “As aldeias urbanas são espaços riquíssimos para essas trocas de saberes e contribuição com o planeta, com cada um fazendo a sua parte”. Para Kely Boscato, coordenadora do VerdeSinos, as ações realizadas e as previstas evidenciam o papel do Projeto VerdeSinos: Cidades-Esponja como articulador de soluções baseadas na natureza. “Focamos na educação ambiental e na participação social, consolidando as condições técnicas, institucionais e territoriais para a construção de um mundo melhor”. A Aldeia Pindoty conta com uma escola guarani, uma casa de rezo, plantação de milho guarani – com grãos nas cores amarelo, preto, branco e azul, cultivo de erva-mate e criação de porcos e galinhas. Cátia Cylene

Manifestação dos Comitês de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas sobre as enchentes

O Rio Grande do Sul passa, neste momento, pelo maior desastre ambiental de sua história. Enchentes devastadoras ocorrem após períodos de estiagem, revelando uma crise de gestão hídrica a ser enfrentada pelo Estado. É importante reconhecer que chegamos a este ponto devido à falta de aproveitamento e implementação plena do Sistema Estadual de Recursos Hídricos – SERH, criado em 1994 após mobilização popular. Tentativas de se propor outro arranjo institucional diferente do que o definido pelo SERH na Lei Estadual Nº 10.350/94 que estão circulando na mídia neste momento são um desrespeito aos mais de 30 anos de ativismo da sociedade gaúcha, governo e agentes econômicos para a valorização dos comitês de bacia e da própria legislação. O SERH foi concebido para proporcionar uma gestão integrada e eficiente dos recursos hídricos por meio dos Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo a participação democrática de todos os setores da sociedade, agentes econômicos e governo. No entanto, apesar de seu potencial, o sistema nunca foi plenamente implantado. A não implementação das agências de bacia e da cobrança pelo uso dos recursos hídricos, componentes fundamentais desse sistema, resultou em uma gestão fragmentada, desarticulada e ineficaz, incapaz de planejar e executar as ações necessárias para reduzir vulnerabilidades e, assim, mitigar os efeitos de eventos como o que enfrentamos. Os Comitês de Bacia Hidrográfica, com sua composição diversa e representativa, têm o potencial de harmonizar os interesses ambientais e econômicos, promovendo o desenvolvimento mais sustentável e a proteção dos recursos hídricos. No entanto, a falta de suporte institucional e financeiro dificulta o desempenho pleno das funções dos Comitês de Bacia Hidrográfica. A cobrança pelo uso da água não apenas financiaria parte das ações necessárias, como também incentivaria o uso racional por parte dos agentes econômicos, reduzindo a pressão sobre os recursos naturais. Os eventos extremos que vivenciamos são um alerta urgente para a necessidade de uma gestão hídrica eficiente e integrada. A implementação total do SERH é essencial para preparar o Estado para o enfrentamento dos desafios climáticos atuais e futuros. Precisamos de um planejamento com visão de Bacia Hidrográfica, capaz de entender a dinâmica dos impactos e tomar decisões que protejam toda a população, especialmente os mais vulneráveis. É fundamental que os grupos de trabalho municipais, estaduais e federais que venham a ser formados para a reconstrução das áreas afetadas contem com representantes dos Comitês de Bacia Hidrográfica, para que os trabalhos sigam a legislação e as atribuições destes comitês. Os comitês de bacia devem ser respeitados e considerados em seus papéis legais inclusive na constituição do Programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Estado do Rio Grande do Sul. Na inexistência de uma Agência de Região Hidrográfica, os consórcios surgem como oportunidade essencial no processo de recuperação e até de implementação da cobrança pelo uso da água à luz dos planos de bacia e de suas necessárias atualizações frente à emergência climática. Apelamos às autoridades municipais, do Estado e da União, assim como à sociedade gaúcha e brasileira, para que reconheçam a importância de implementar todas as ferramentas previstas no Sistema Estadual de Recursos Hídricos. É imperativo apoiar os Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo os recursos e a estrutura necessária para que possam desempenhar seu papel de forma eficaz. Somente com uma gestão integrada e democrática dos recursos hídricos poderemos enfrentar os desafios climáticos e assegurar um futuro sustentável para o Rio Grande do Sul. Viviane Feijó Machado – Presidente do Comitê Sinos Rafael Altenhofen – Presidente do Comitê Caí Sérgio Cardoso – Presidente do Comitê Gravatahy

Reflexões sobre a enchente de 2024

A enchente de 2024 é, de longe, a pior da história da presença civilizada no Rio Grande do Sul. Entre Abril e Maio choveu cerca de mil milímetros de chuva. Mais da metade do esperado para um ano inteiro. É bem provável que ela vai passar a ser o parâmetro tomando o lugar da grande enchente de 41 no imaginário popular. As águas invadiram áreas baixas de diversos locais do Vale do Sinos e outras regiões do Estado. Na região metropolitana se romperam diques e em Porto Alegre o sucateado sistema de proteção das cheias falhou completamente e grande parte da capital ficou debaixo de água. Um detalhe tem que ser lembrado. Os diques do Vale do Sinos foram locados bem perto do rio e deixaram uma parte do banhado do lado “seco” que acabou atraindo o povo sem outra opção de moradia para lá. Uma verdadeira armadilha. Isso para deixar áreas realmente altas para ocupação por gente em melhor situação econômica. Curiosamente o que também ocorreu em 1824 quando o império queria fazer a colônia onde hoje é o parque da Floresta Imperial em Novo Hamburgo, mas o dono da terra junto ao passo de São Leopoldo (terras doadas pela Coroa, por sinal) convenceu o representante local da colonização a comprar sua terra e assentar povo na beira dos banhados do Sinos. Essa área roubada ao banhado poderia estar ajudando a segurar o nível da enchente mais tempo e não seria uma área de risco humano se tivesse ficado como reserva natural a exemplo do parque da imperatriz em São Leopoldo ou o banhado da estrada da integração em Novo Hamburgo.  Tivessem respeitado os banhados e talvez o centro de São Leopoldo hoje ficasse em Novo Hamburgo. O mesmo caso ocorre em Canoas, Esteio e Sapucaia onde as partes mais atingidas são os assentamentos humanos localizados em antigos banhados e várzeas. São detalhes que afetam muitas vidas e mostram como é importante que decisões importantes sejam tomadas com muito debate popular e com apoio da ciência. Os diques foram erguidos nos anos da ditadura militar e São Leopoldo foi iniciado no império. Democracia era algo que não existia nesses dois momentos históricos. O Comitesinos propôs um mapeamento das áreas de risco de todo o vale e tentou orientar os municípios, pelo menos a não deixar ocupar com mais urbanização essas regiões. Quem mais resistiu foi a gestão pública de Canoas e algumas das suas entidades empresariais. Curiosamente foi a cidade com mais gente fora de casa e que defendia que a Rodovia do Parque (BR-448) fosse construída como um grande dique para poder se expandir no sentido do rio. Se isso tivesse ocorrido certamente os danos da enchente seriam maiores ainda. Hoje pagamos um preço terrível por erros do passado no processo de ocupação do território. Outra coisa que fica evidente é que um dos problemas do RS é que estão exterminando os órgãos técnicos científicos onde trabalha a inteligência do Estado que é capaz de gerar as soluções. É triste, mas é verdade. A cultura de serviço público vai se perdendo e chega num ponto que ficamos sem rumo. No meu setor junto à Fepam se aposentaram três das cinco pessoas que tinham quando entrei. Houve uma reposição em 10 anos. Faz quatro anos que esperamos substituição dos outros dois. Em breve os mais velhos se aposentam não vai ter ninguém para ensinar transmitir a experiência que o setor acumulou para quem chegar. A Metroplan, que trabalha com o tema da proteção de inundações, perdeu muito pessoal.  A Fundação Zoobotânica que estudava a nossa biodiversidade foi extinta. Nada contra a iniciativa privada trabalhar para o Estado. Muitas vezes é necessária. Mas o serviço público é essencial para conduzir a gestão. É assim em todos os países desenvolvidos. Sem serviço público de qualidade um país fica como os países pobres da África. Um verdadeiro salve se quem puder em meio a um caos de lutas internas entre grupos rivais, como já ocorre em alguns locais de nossos grandes centros. Outro fato a ser analisado nesse contexto é que o voluntariado tem limite. Ainda que sua contribuição seja um exemplo magnífico da solidariedade humana o fato é uns dias depois de a tragédia deixar de ser pauta da grande mídia a maioria dos voluntários volta para casa até porque não são profissionais e tem que cuidar de suas vidas. Quem vai seguir é o serviço público. É assim sempre. Só que não se falam disso em muitos veículos de imprensa. Especialmente os aliados com a ideia do estado mínimo que ajudou muito a levar o RS a esse estado de calamidade. O país hoje está cheio de jovens bem preparados. Muitos que gostariam de trabalhar no serviço público. Em vinte anos como servidor público trabalhei com pelo menos quarenta estagiários.  Muitos nos procuraram porque queriam se tornar servidores públicos. Alguns até passaram em concurso e trabalham no setor público. O jovem que entrou no meu setor foi meu estagiário. Mas tem muitos que não recebem oportunidade. Alguns até vão embora do Brasil. Desperdiçando a sua qualificação, pois lá vão ser trabalhadores de serviços para gente com pouca formação. Também irrita um pouco a política de algumas empresas privadas de previsões meteorológicas especializadas em fazer manchetes catastrofistas para atrair leitores para suas páginas na internet recheadas de anunciantes. Quando muitas das suas previsões trágicas não ocorrem ficam quietos como as videntes que todo novo ano as revistas de fofocas entrevistam para prever o que virá. Cientificamente são capacitadas, mas não nos parece correto que lucrem atemorizando as pessoas e faturando em cima da espetacularização da desgraça (como, aliás, também o fazem muitos veículos de mídias para aumentar a audiência de seus programas).  Os serviços de alerta de risco devem ser ponderados e objetivos em suas manifestações. Dar a informação precisa é fundamental para que os alertas sejam levados a sério pela população. Abusar do sensacionalismo só atrasa a formação de uma cultura de prevenção. Também vemos nessas horas que muitos

É urgente implementar as cidades-esponjas

Já passou demais da hora a implementação das cidades-esponjas em todo território gaúcho. Precisamos urgentemente transformar nossas cidades em esponjas – em sistemas capazes de absorver, armazenar e filtrar a água da chuva, reduzindo o impacto de alagamentos e aumentando a disponibilidade de água em período de escassez hídrica. O foco é empenhar todos esforços nessa reconstrução e tentar evitar novas catástrofes como essa que estamos sofrendo. É preciso correr atrás do que ainda não foi destruído e nos agarrar com unhas e dentes e raízes de agroflorestas para impedir o fim total do que resta do nosso bioma Pampa. O cavalo no telhado é nosso símbolo de força e resistência gaúcha. Mas será mesmo que precisávamos provar isso com tanto sofrimento? Com tanto descaso aos avisos de ambientalistas? Com tantas vidas perdidas? As projeções de câmbio climático já apontavam para chuvas aqui no sul, cada vez mais intensas e em períodos mais concentrados com grandes enchentes, seguidas de estiagens. Isso já é real e não pode mais ser negado. Sabemos que tudo é político, que toda decisão tem lado e quando o governador Eduardo Leite optou por cortar e alterar quase 500 pontos do Código Ambiental do RS, que já foi exemplo em outros tempos, a escolha não foi pela manutenção dos seres vivos, muito menos pela defesa do Pampa, mas sim pelo lucro acima de tudo e todos. A luta pelas vidas continua, saúde física e psicológica são prioridades agora. A verdadeira revolução é essa, a de ser “gauche” na vida. Vamos lá povo gaúcho, da lama ao caos, vamos cevar um mate muito amargo ainda. Que a gente consiga fortalecer ainda mais essa importante teia de apoio ao sul. Em nosso município compomos a Rede de Solidariedade de Novo Hamburgo que já preparou e entregou mais de 4.700 marmitas e 300 kits de sobrevivência para pessoas atingidas no Vale do Sinos. Participe e contribua como puder >> Acesse a Rede de Solidariedade NH Cátia CyleneMovimento Roessler para Defesa Ambiental

Secas, Crise Hídrica e Áreas de Preservação Permanente

Com as mudanças climáticas em franca expansão o setor agrícola tem lidado cada vez mais com o problema das secas gerando quebra de safra. Além de ser um problema para a geração de renda no setor, ele também é uma preocupação quanto à segurança alimentar da humanidade, cuja necessidade de comida tende a crescer com a expansão da população. O que pode fazer mais gente no mundo correr riscos de passar fome. Em geral, se houve muitas vozes indicando a irrigação como saída para diminuir esse risco. São apontados sempre os mesmos caminhos. O uso de tecnologia de irrigação mais eficiente que use menos água, grandes obras de transposição de bacia e a necessidade de mais estruturas de armazenamento dos excessos de chuvas para uso nos meses de escassez. Essa lógica está correta de um modo geral. Mas para ser efetiva é preciso, antes de tudo, ter água disponível para todos os usos humanos. As projeções de cambio climático apontam que a disponibilidade de água pode cair em várias regiões do Brasil. No noroeste da Bahia os estudos do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) apontam a passagem de uma região do semiárido para um clima árido com a redução do regime de precipitação já se verificando. No sul parece que vai chover mais, mas cada vez em períodos mais concentrados com grandes enchentes seguidas de estiagens curtas ou mesmo mais longas. Vários aspectos a serem observados A opção por irrigação é correta, mas depende de disponibilidade do recurso. Se não chove regularmente não adianta ter estrutura de irrigação. Inclusive se fala num paradoxo da melhoria da tecnologia de irrigação. Quanto mais eficiente for à irrigação mais gente procura se valer dela. O que aumenta o consumo resultando no curioso fato de que com mais tecnologia de irrigação aumenta a falta de água não só na agricultura, mas em outros usos também. Mesmo contando com obras de reservação ou transposição pode faltar água se ela não estiver disponível na grande caixa d’água natural que é o solo. Um metro quadrado de solo pode segurar até 500 litros de água. Mas para isso ela tem que entrar no solo. E isso só ocorre quando se preservam as áreas naturais produtoras de água que são os banhados, as matas e a vegetação natural, junto às encostas e nascentes, bem como as Áreas de Preservação Permanente (APP). Essas áreas estratégicas para infiltração de água no solo deve ser o foco principal de quem se preocupa com falta de água na agricultura e noutros usos. Solos urbanizados ou com agricultura muito intensa não têm a mesma taxa de infiltração de água do que um solo conservado com vegetação natural. A grande transposição do São Francisco corre o risco de não ter água suficiente se seguir a devastação do Cerrado e as Áreas de Preservação Permanente junto aos rios mais acima na bacia. É ali que a água entra no solo e vai ser liberada aos poucos na época seca. Esse mesmo risco existe para os sistemas de transposições que abastecem a Grande São Paulo e a cidade do Rio de Janeiro. No sul pode faltar água a ser acumulada em barragens e açudes, caso as APP e outras áreas estratégicas para infiltração de água no solo seguirem sendo destruídas. Importância das nascentes Todos que já acompanharam um processo de recuperação da vegetação nativa numa região logo apontam a volta das nascentes como um dos primeiros frutos dessas ações. Junto com o retorno da fauna silvestre é um dos primeiros efeitos percebidos o aumento da água nos cursos hídricos, pois aumenta a reserva no lençol freático onde a água está protegida da evaporação. O que não ocorre em barramentos e açudes onde o sol quente e o ar seco das estiagens podem roubar muito da água acumulada. Mas infelizmente não se vê essa lógica sendo muito difundida nos debates sobre a falta de água. O que se vê são saídas caminhando no sentido de destruir essas áreas estratégicas para infiltração de água no solo, em especial as APP. E saídas querendo reservar água, um bem público, para usos exclusivamente privados. RS na contramão No Rio Grande do Sul um projeto de lei liberou para quem quiser fazer açude e barragem o uso das Áreas de Preservação Permanente. O que beneficia apenas uns poucos grandes produtores. Em geral os que também têm grandes Áreas de Preservação Permanente devastadas. Além disto, com essa lei estamos voltando ao Código das Águas de 1934 que considerava a água localizada numa área de terras como propriedade privada de quem era dono das terras onde ela era armazenada ou mesmo a que ocorria naturalmente. Isso vai contra o conceito de água como bem público que embasa a legislação nacional de gestão das águas. O que a torna inconstitucional. Essa lei vai aumentar o risco de conflito por água como já ocorre em muitos lugares do mundo onde se criou maciços projetos de irrigação que levam a falta dela nas partes mais baixas das bacias. O que deveríamos estar fazendo é incrementar ainda mais os comitês de bacias onde democraticamente podemos gerar políticas públicas para garantir água de abundância e qualidade para todos os usos. Também temos que implantar mais projetos de recuperação das áreas estratégicas para infiltração de água no solo. Isso vai ajudar no combate, tanto das consequências como das causas das mudanças climáticas pelo sequestro de carbono e pelo aumento da disponibilidade da água no solo. Também ajuda na proteção da biodiversidade e reduz a poluição das águas. Regiões com áreas estratégicas para infiltração de água no solo e APP recuperadas e/ou preservadas tem águas mais limpas, pois a vegetação filtra a contaminação ambiental de resíduos tóxicos lançados na água. A saída para o risco de falta de água não é trabalhar contra a natureza, mas sim usar as estratégias que ela sempre usou para garantir água boa, mesmo em regiões que naturalmente chove pouco. E pensar no que é interesse coletivo sempre em primeiro

Ranking do saneamento básico aponta cidades com os melhores e os piores serviços no Brasil

De um lado, cidades em que quase todos os moradores têm acesso a água potável e coleta de esgoto, além de baixo desperdício e altos níveis de investimento em obras de saneamento. Do outro, municípios em que metade da água tratada é perdida por conta de tubulações antigas e “gatos” e em que apenas três a cada dez moradores têm acesso a coleta de esgoto. Essa desigualdade sanitária e social é um dos destaques de um estudo do Instituto Trata Brasil com a GO Associados, divulgado em março passado. Segundo informações do Ranking do Saneamento 2024, das 27 capitais brasileiras, somente nove possuem ao menos 99% de abastecimento total de água. Apesar da média do indicador seja de 95,68%, a situação no país é bastante heterogênea, uma vez que há capitais no Norte do país com indicadores próximos ou abaixo de 50%, como Macapá (AP) com 54,38%, Rio Branco (AC) com 53,50%, e Porto Velho (RO), com 41,79%.] Infelizmente no Brasil, o acesso à água potável ainda não é uma realidade para muitos brasileiros e brasileiras. São mais de 32 milhões de habitantes que não têm acesso ao recurso hídrico.    No ranking do Saneamento, o Rio Grande do Sul aparece com as cidades de Gravataí (13º) e Pelotas (17º) entre os 20 piores municípios brasileiros. E, infelizmente, nenhum município gaúcho está entre os 20 melhores do país. O documento analisa os indicadores de saneamento das 100 maiores cidades do país, que concentram aproximadamente 40% da população brasileira, e faz um ranking com base nos serviços oferecidos e em indicadores de eficiência. São considerados os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), referentes ao ano de 2021. Destaques: Cátia Cylene,com informações do G1 e Instituto Trata Brasil