Cultura da erva-mate ganha metodologia para cálculos do fluxo de carbono

A erva-mate, primeiro patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul, figura entre as 13 práticas tecnológicas consideradas potencialmente mitigadoras de emissões de gases de efeito estufa pelo Plano ABC+, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Com o objetivo de medir os estoques de carbono e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) durante o cultivo de erva-mate (Ilex paraguariensis), a Embrapa Florestas (PR) e a Fundação Solidaridad desenvolveram uma calculadora de carbono, a Carbon Matte. A tecnologia proporciona melhor compreensão sobre a relação entre a produção da erva-mate e a mitigação das emissões de GEE mediante o armazenamento de carbono. Além disso, pode apoiar processos de certificação ou rotulagem de produtos ambientalmente sustentáveis, bem como mensurar ativos ambientais e contribuir para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 13) da Organização das Nações Unidas (ONU), relacionado à mudança global do clima. Conforme o coordenador dos programas de Erva-Mate e Café da Fundação Solidaridad, Gabriel Dedini, a Carbon Matte ajuda a contabilizar os estoques de carbono e faz uma interface com as práticas de manejo que são adotadas pelo agricultor. “Então, a gente consegue fazer uma adequação de melhores práticas, olhando também para esse resultado do sequestro de carbono dentro dos sistemas de produção”, conclui. A calculadora é composta por uma planilha eletrônica na qual são inseridos dados como produção de biomassa e as práticas silviculturais adotadas. Ela calcula emissões e remoções totais de carbono do sistema e as fontes de emissão de alguns dos principais gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). A ferramenta pode ser acessada de forma gratuita pelos produtores, por meio do site da Embrapa Florestas, e dá suporte para trabalhar junto com o plano ABC. A erva-mate é uma das culturas agrícolas mais antigas do Estado, disseminada pelos guaranis. Atualmente o Rio Grande do Sul conta com cinco polos de produção da planta: Alto Taquari, Alto Uruguai, Região Nordeste, Região dos Vales e Missões. É uma cultura produzida em cerca de 200 municípios, com mais de 32 mil hectares cultivados e que movimenta pelo menos R$ 290 milhões da economia gaúcha. Cátia Cylene, jornalista
Movimento Roessler completa 37 anos

Notícia do Jornal NH do sábado, dia 20/06/2015.
Lutas que atravessam o Movimento de Mulheres Camponesas

A história das mulheres do campo ou da cidade, entrelaçam-se em muitos pontos, seja no machismo diário, nas tentativas de silenciamento, o não direito sobre suas terras, sobre seus corpos. Esses entrelaçamentos também constrói a luta, como é o caso do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), que em novembro passado completou 40 anos. Menor das cinco regiões do país, com área territorial de 576 774,31 km², a região Sul é a segunda mais povoada do país. Formada por três estados – Paraná (PR), Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS), a região ocupa 6,76% do território brasileiro. Adriana Mezzadri, 45 anos, moradora da cidade de Charrua, região Noroeste do RS, está desde seus 14 anos militando no movimento. Assim com muitas outras mulheres o que a levou ao MMC foi perceber que era mulher e que podia ter direitos. “Eu era um ser humano de direito, que eu podia ver um mundo diferente, que eu não precisava só estar dentro de casa.” Mãe de três filhos, ela pontua que começou a participar, na adolescência, das lutas pelos direitos ao salário maternidade e à saúde pública – que deveria ser um “direito de todos e dever do Estado”. Assim como por igualdade. “Há anos atrás, e hoje também, como a mulher dirigir, ir a certos lugares em determinados horários, ou querer estudar, era e continua sendo, em diferentes momentos, há questionamentos por ser mulher.” A luta pela terra Na luta pela terra, Adriana destaca que só 19% de mulheres têm a terra em seu nome, por mais que se tenha avançado na questão da reforma agrária. Para ela, o machismo e o patriarcado podem ser vistos nessa questão da terra. “Por exemplo, de herança, poucas mulheres têm acesso à terra por essa via, a maioria fica com os homens.” Conforme enfatiza, a luta pela terra, pelo território são importantes, ainda mais se levar em conta a questão do agronegócio, as transnacionais. “O agro, o hidro, o minério têm tomado bastante espaço no nosso território, e bastante recursos financeiros, ambientais, sociais, o que causa um grande impacto. A nossa luta pela soberania alimentar, pela alimentação saudável, pela reforma agrária popular, com certeza tem muito a ver com ter acesso também à terra, poder produzir alimentos saudáveis.” Efeitos do clima O Sul foi atingido no segundo semestre 2023 por catástrofes climáticas, em especial as enchentes no RS, diferente do quadro que tem se observado na Região Amazônica. Esse efeito climático tem afetado drasticamente a agricultura e produção local daqueles que se dedicam ao campo. “Nós viemos de dois anos de seca, onde a produção de alimentos para consumo foi bastante comprometida. E agora com esse excesso de chuva também, quando se consegue plantar, as plantas não se desenvolvem. Isso também nos atinge de forma cruel, porque tem alimentos, que se a gente não produz, a gente acaba não tendo condições de comprar para agregar na alimentação”, expõe. Em sua avaliação esse desequilíbrio ambiental tem a ver com o modelo de desenvolvimento, que não respeita a vida das pessoas, não respeita a natureza, o planeta. “Nós dizemos na Via Campesina que só os camponeses que vão conseguir esfriar o mundo, com a distribuição da terra, com a reforma agrária, com a produção de alimentos saudáveis, a soberania alimentar pra todos os povos.” Para ela, o que diferencia a mulher do Sul para outras regiões é a situação de vida e a questão ambiental. “O desafio de construção acaba sendo bastante parecido, às vezes do acesso à educação. Tem vários desafios que continuam. Por exemplo, a disputa do território se dá muito na Região Amazônica, no Nordeste, por toda a questão da seca que eles convivem o tempo inteiro, como produzir alimentos sem acesso à água, sem acesso à terra, é bastante desafiador”, pontua. Machismo “A questão do machismo perpassa o conjunto, nós vivemos em um momento que o fascismo, o conservadorismo ganha muita força. Então coisas que nós ouvíamos lá nos anos 1980, nós voltamos a ouvir agora, que o nosso lugar não é na rua, é em casa. O nosso lugar é onde a gente quiser, construindo a luta popular, construindo a luta com política pública, é onde a gente quiser. A gente organizada afirma esse processo e demonstra pra sociedade que é possível.” Conquistas Nas quatro décadas de movimento, Adriana destaca como uma grande conquista a conscientização de direitos das mulheres. “De ser um ser humano de direitos, de perceber que não precisa viver com violência, de lutar contra um modelo concebido. E também de construir a organização de base, autônoma, e aí construindo com o conjunto da classe trabalhadora, a construção da unidade de uma sociedade. A gente sabe que se as mulheres se libertarem e libertarem a classe trabalhadora, não vai acontecer o capitalismo. Nós podemos transformar a sociedade, e no dia a dia nós podemos construir essa transformação.” Para ela o grande desafio é continuar construindo organização das suas diversas formas, e trazendo informação de consciência, disputando o coração e a mente de todos, todas e todes. Fabiana Reinholz, jornalistaBrasil de Fato | Porto Alegre
Projeto VerdeSinos é contemplado pelo programa Petrobras Socioambiental 2023

O projeto Cidades-esponja, do VerdeSinos, foi um dos vencedores do programa Petrobras Socioambiental 2023, da Petrobras 2023. Ao todo, foram selecionados 31 projetos, que serão beneficiados com uma verba total de R$ 212 milhões no próximo triênio. O VerdeSinos foi contemplado na categoria Floresta e selecionado pela terceira vez em editais da companhia. O valor vai garantir a continuidade da iniciativa — desenvolvida desde 2009 sob coordenação do Comitesinos —, e será empregado na quinta etapa, que se iniciará neste ano. A linha principal da atuação do projeto “VerdeSinos Cidades-esponja” é Floresta, com componentes fortes nas linhas Educação e Desenvolvimento Sustentável. Atendendo a ideia principal das cidades esponja, são planejadas ações que visam ao manejo das águas das precipitações nos municípios da bacia que mostram um histórico extenso de alagamentos. O conceito de cidades-esponja tem se tornado cada vez mais popular no mundo da gestão das águas e da sustentabilidade urbana. Essa abordagem busca criar cidades mais resilientes e adaptáveis às mudanças climáticas, especialmente no que diz respeito aos alagamentos e à escassez de água. A ideia central é transformar as cidades em esponjas, ou seja, em sistemas capazes de absorver, armazenar e filtrar água da chuva, reduzindo o impacto de alagamentos e aumentando a disponibilidade de água para uso humano e para as áreas verdes da cidade. Para implementar esse conceito, é necessário fazer um diagnóstico das condições atuais das cidades em relação à gestão das águas e identificar as áreas mais vulneráveis aos alagamentos e à escassez de água. A partir daí, é possível desenvolver um plano de ação que inclua medidas como a construção de reservatórios de água, a criação de sistemas de drenagem sustentável, o aumento da permeabilidade do solo e a promoção de áreas verdes. O Movimento Roessler – entidade gestora do VerdeSinos – esteve representado por sua presidente, Luana Rosa, no evento de anúncio dos vencedores do programa Petrobras Socioambiental 2023.
Comitesinos aprova mecanismo e valor para cobrança pelo uso da água do Rio dos Sinos

O plenário do Comitesinos aprovou, em março, os valores para a cobrança pelo uso dos recursos hídricos na bacia do Sinos. O mecanismo foi aprovado na última reunião de 2023. A deliberação foi concluída e aprovada com esses dois documentos. Com a decisão, o colegiado se torna o primeiro comitê de bacia do Rio Grande do Sul a concluir a etapa de formatação de mecanismos e preços que sinalizam ao governo gaúcho como companhias de abastecimento, indústria e produtores rurais devem pagar pela retirada de água do rio para suas atividades produtivas quando a lei entrar em vigor. Prevista no Sistema Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/97), a cobrança pelo uso da água é uma ferramenta de gestão para o investimento dos recursos arrecadados nas bacias hidrográficas em sua recuperação, assegurando água em quantidade e qualidade para todos os usos. No Brasil, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Paraíba, Rio Grande do Norte e Goiás já adotaram a ferramenta. O RS, apesar de ser precursor na criação da Lei 10.350/94 e ter ajudado a formular a política em nível federal, ainda não aplica a cobrança, ficando para trás no cumprimento da legislação. “O dia é histórico, pois o Rio Grande do Sul precisa desse instrumento, a cobrança, para de fato termos o Sistema Estadual de Gestão de Recursos totalmente implementado. Esta aprovação é um passo importante para isso”, explica Viviane Feijó Machado, presidente do Comitesinos. “O pagamento pela retirada de recursos hídricos do rio não apenas atenderá a lei, como democratizará o uso da água e viabilizará obras fundamentais do Plano de Bacia para as próximas gerações”, comemora. Desde o início de 2022 o tema é tratado constantemente no Comitesinos. O GT Cobrança, instituído para tratar do tema, contou com a participação de especialistas da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) e do Departamento Estadual de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS/RS). Os técnicos ajudaram a orientar os representantes das três categorias envolvidas, buscaram dados da bacia, apresentaram exemplos de todo o país e contribuíram à formação dos dois produtos, mecanismo e valor. A implementação é responsabilidade do Estado. O Comitesinos volta atenção agora às definições das ações prioritárias para investimentos dos valores arrecadados, bem como permanecerá acompanhando os trâmites para a implementação do instrumento. VALORES Os valores dos Preços Públicos Unitários (PPUs) de cobrança serão constituídos utilizando como base o valor unitário do metro cúbico da água por categoria de finalidade de uso para captação e pelo quilograma da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) para lançamento, através do cálculo definido no Mecanismo de Cobrança pelo Uso dos Recursos Hídricos na Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos. REPASSES e APLICAÇÃO Os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados nas seguintes intervenções estruturais e não estruturais previstas no Plano de Bacia da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos e definidas como prioritárias pelo colegiado: Redução das Cargas Poluidoras, Proteção e Minimização dos Impactos Negativos das Cheias e Monitoramento da Qualidade e Quantidade das Águas. O montante varia de acordo com o número de outorgas concedidas pelo Estado, ou seja, a permissão que as empresas e setores recebem para retirar água do rio, conforme suas atividades. Do total arrecadado, 8% irão para o sistema de gerenciamento de recursos hídricos, que compreende a Agência de Bacia (ou entidade delegatária) e Comitê e 92% serão revertidos em investimentos. Comitesinos
O Rio dos Sinos e o Comitesinos

O Rio dos Sinos é um curso d´água extraordinário. Um ente mágico. Por um lado ele é uma fonte de vida pra todos os seres vivos que habitam o seu vale. Literalmente ele corre nas veias de quem bebe suas águas. As mesmas que movimentam diversas atividades econômicas no campo e na cidade. Se por um lado ele é forte, por outro ele é bem frágil na medida em que sofre com todos os impactos da atividade humana que afetam a disponibilidade de água no seu leito e a qualidade destas águas. O que o coloca num estado de permanente atenção para que continue um rio vivo capaz de manter seu aspecto sócio cultural mais importante que é o de ser o fator de identidade de todos que vivem as suas margens e formadores. A origem do rio remota há cerca de 130 milhões de anos quando o antigo continente de Gondwana começou a se separar dando origem ao oceano Atlântico. Fenômeno que segue até nossos dias com o afastamento da África e da América do Sul. As forças tectônicas que moveram esse processo geraram grandes derrames de lava. Essa se espalhou por cima do grande deserto que havia no centro do antigo continente. Ao esfriar essa lava se fracionou em inúmeras linhas de fratura que marcaram o caminho para as intempéries, ao longo ao milhões de anos, fossem esculpindo o território do Vale do Sinos, entre outros. Após o último período glacial, há alguns milhares de anos atrás, a vegetação tropical desceu pelo litoral e pelos vales da bacia cisplatina e veio se misturar nas partes baixas do Vale do Sinos formando a mata atlântica que ainda hoje cobre áreas na região. Essa paisagem foi ocupada por povos originários que denominavam o rio de Cururuaí e Itapuí. O primeiro nome significando rio dos ratões do banhado. Um testemunho da quantidade de animais que habitavam os grandes banhados ao longo das partes baixas do vale. Dizem que esses animais gritam à noite de suas tocas nas margens. O que explica o nome Itapuí – rio das pedras que gritam. Esses povos originários começaram a modificar a paisagem. Mas devido à pouca densidade populacional e poder tecnológico foram danos pequenos. A transformação da paisagem começou no século 18 quando os ocupantes açorianos acompanhados de escravos africanos começaram a criar gado na região. Logo o Império Português implantou a Feitoria do Linho Cânhamo em São Leopoldo. Projeto que não durou muito, mas que foi determinante para que o local, já no século 19, fosse escolhido como destino da colonização alemã no sul do Brasil. Essa migração passou a ocupar todo o vale transformando-o numa paisagem agrícola e deslocando a maior parte da população anterior e mudando o uso do solo. O que começa a afetar mais o rio. Já no século 20, se implanta a indústria do couro que trouxe um novo elemento de degradação à paisagem e as águas do Sinos. Este fenômeno gerou a primeira reação cidadã em defesa do rio liderada por Henrique Luiz Roessler. Pioneiro da defesa da natureza organizou um grupo de militantes da causa que atuou até os anos 60 e se esvaiu com a morte do líder. Mas que deixou uma massa crítica de cidadania que mais tarde se somaria a nova geração de ecologistas do vale. Essa geração surgiu quando, nos anos 70 e 80, houve um aumento da industrialização de calçados voltados para a exportação que incrementou a poluição e atraiu milhares de pessoas de outros pontos do RS para a região. O resultado foi uma urbanização sem controle que trouxe outros fatores de degradação como o lixo e esgoto cloacal. Em 1985, numa palestra no centro de cultura de Novo Hamburgo, técnicos do Departamento do Meio Ambiente (DMA) declararam que os estudos de qualidade do rio apontavam que, se nada fosse feito, até 1990, o rio poderia estar morto. Metade pela poluição das cidades, metade pela poluição da indústria. Essa denúncia mobilizou o Movimento Roessler e a Upan a desencadear um trabalho em prol do rio. Com a ajuda de um financiamento da Igreja Católica alemã, obtido com a intervenção do bispo Dom Sinésio, se iniciou o chamado Programa de Setes Pontos em prol do Rio. O primeiro passo foi contra os curtumes, que na época não tratavam seus dejetos. Foi feito uma grande campanha chamada Rio que te quero limpo, com adesivos em defesa do rio criada pelo artista Rogério Rauber. Como a indústria não queria fazer nada, os ecologistas realizaram um grande ato público com o apoio do grupo Valão. Um coletivo de artistas que atuava na região. Foi feita a pintura do quadro do rio no muro da sede da igreja luterana junto ao calçadão de Novo Hamburgo. O ato gerou grande polêmica na imprensa local com jornalistas se dividindo entre apoiadores e contrários ao desenho exposto no local. O debate também mexeu com vários setores se manifestando no Jornal NH em prol do rio. Isso fez o Grupo Editorial Sinos lançar outra campanha chamada “SOS Rio dos Sinos”, apoiado pela indústria tentando capturar a liderança do tema. Mas a mobilização cidadã já era tão grande que o DMA acabou interditando alguns curtumes depois do fracasso de rodadas de conversa entre os ecologistas e curtumeiros em Porto Alegre. Isso fez com que tecnologia de tratamento industrial começasse a ser introduzida na região e amenizasse a poluição das indústrias. Mas os ecologistas queriam mais e seguiram no enfrentamento dos impactos do lixo e do esgoto no rio e propuseram que fosse criado um órgão para cuidar do rio. Essa ideia encontrou eco em dois setores. O primeiro foi o dos pesquisadores da Unisinos, liderados pelo professor Henrique Fensterseifer, que já trabalhavam em pesquisas sobre a natureza do rio. O segundo foi um grupo de técnicos do Estado, liderados pelo engenheiro Antônio Grassi, da Corsan e pelo economista Eugênio Canepa, da Cientec. Eles estudavam modelos de gestão das águas mundo afora. O grupo da Unisinos organizou um seminário que ocorreu
Ações do Movimento Roessler em 45 anos

Praça da Bandeira Em 1982 militantes do Movimento Roessler realizaram um manifesto na Praça da Bandeira para evitar que ela fosse transformada num estacionamento. Graças a isso ela é hoje uma bela área verde num dos pontos mais pitorescos da cidade. Intervenção cultural Era o ano de 1986. A sensibilização e mobilização dos artistas da cidade motivou a pintura de mural no Calçadão de Novo Hamburgo chamando atenção para a importância do nosso Rio dos Sinos. Com a parceria do Grupo Valão foi feito um grande ato de denúncia da situação do Rio dos Sinos para pressionar o Estado e a região a forçar as indústriais a tratar seus efluentes, as prefeituras tratarem lixo e esgoto cloacal e se criar um órgão para cuidar do Rio. Fomos vitoriosos pois a partir daí se deram os passos para a criação do Comitesinos e o início de ações em prol do Rio. Efetivação do Parcão Em 1987 o Movimento Roessler lançou a campanha “Parcão Já”. O objetivo foi popularizar a bandeira de criação de uma parque na última grande área verde da zona urbana da cidade. Depois de alguns anos de lutas o Parque foi comprado e hoje é o Parque Henrique Luiz Roessler. Coleta seletiva e Central de Reciclagem do Roselândia Em 1989 apoiamos a iniciativa de implantar uma central de reciclagem de lixo no bairro Roselândia. Com isso se daria fim ao depósito de lixo nos banhados do Rio dos Sinos. O projeto foi idealizado pelo grande mestre da Ecologia José Lutzenberger. Junto foi criada uma campanha pela separação do lixo em casa. A denominação ‘lixo’ foi posteriormente substituída por resíduos sólidos. Fundo Nacional do Meio Ambiente De 1994 a 1996 o Movimento Roessler representou os três estados do Sul no Fundo Nacional do Meio Ambiente ajudando a definir recursos para muitas iniciativas ambientais no país. Fim da Picada A partir de 1997 o Movimento Roessler começou a organizar caminhadas mensais, no último sábado de cada mês entre março e novembro. Elas visavam conhecer a região e oportunizar momentos de contato e convívio entre as pessoas ligadas a entidade. Com a pandemia a atividade foi suspensa. Mas centenas de quilômetros foram percorridos por grupos de 10 a 30 pessoas em média. Vitória da escadaria da Gomes Portinho 1998 – Após mobilização do Movimento Roessler e dos moradores, obtivemos uma conquista que resultou na determinação judicial para que a Prefeitura de Novo Hamburgo restaurasse a escadaria da Rua Gomes Portinho. Além disso, o local foi declarado Patrimônio Cultural e Paisagístico da cidade. Encontro Estadual de Entidades Ecológicas (EEEE) Organizamos, em 1999, o XX Encontro Estadual de Entidades Ecológicas (EEEE), no Monte Tabor, em Dois Irmãos. O EEEE contou com ambientalistas de todo o Estado para debater o tema “A Juventude e o Movimento Ecológico”, além de shows culturais e místicas. Romaria das Águas Em 2001 realizamos ampla mobilização popular para a Romaria das Águas. Foram diversas visitas à comunidade Colônia Fraga, em Caraá, para articular a população em torno da defesa do Rio dos Sinos. Eles se envolveram e participaram das etapas municipal e estadual. Acostumados com a alta qualidade das águas em sua localidade, eles nem imaginavam a situação do rio aqui no vale e ficaram chocados ao conhecer o rio em São Leopoldo, a caminho da culminância da Romaria em Porto Alegre, no Guaíba. Uma atividade executada junto ao Programa Pró Guaíba e que contou com parceria da TV Unisinos na produção de um vídeo. Conspiração Capra em POA No Fórum Social Mundial de 2003 realizamos uma conferência com o físico austríaco Fritjof Capra – autor dos livros O Tao da Física, Ponto de Mutação e A Teia da Vida e um dos mais renomados representantes do pensamento ecológico e sistêmico da atualidade. No Auditório Araújo Viana lotado, ele falou sobre o tema “Ciência para uma Vida Sustentável” e os debatedores foram o teólogo Leonardo Boff e o físico budista Lama Padma Santem. Iniciativa promovida e organizada pelo Movimento Roessler junto com Apedema/RS, Núcleo de Ecojornalistas, Agapan, Coolmeia, Fundação Gaia, Programa de Pós-graduação em Administração da UFRGS e Pró-Reitoria de Extensão da PUCRS, com apoio da Petrobras e Prefeitura de Porto Alegre. Campanha “Por um Brasil livre de transgênicos” Em 2003 realizamos diversas ações de mobilização para informar a população sobre os perigos dos alimentos modificados geneticamente. Dentre elas, pedágio na frente do shopping de Novo Hamburgo e a produção do curta metragem “Ponto de Interrogação”, mesclando ficção e realidade para contribuir na reflexão sobre os transgênicos. Manifesto pelo Rio Vivo 2007 – Somos mais de 1 milhão de pessoas e, como cidadãos diretamente afetados em nossa saúde pelo descaso das autoridades, manifestamos nossa indignação com a situação do Rio dos Sinos “Queremos nosso rio vivo e não transformado em uma vala de esgoto”. Segundo o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), as águas dos rios são classificadas em 5 categorias, de 0 a 4, estando o Rio dos Sinos, em seu trecho inferior na pior delas: Classe 4. Manifesto assinado pelo Movimento Roessler, UPAN, CALBIO Unisinos, DAGAMBI Unisinos e DCE Unisinos. Menos plástico, mais óleo reutilizado Em 2007 o Movimento já mobilizava em prol da substituição das sacolas plásticas e pela reutilização do óleo de cozinha. Campanhas importantes na construção de novas culturas na defesa do meio ambiente. Produzimos mais de 2 mil sacolas de pano e incentivamos seu uso. Também divulgamos que a decomposição do óleo sem oxigênio emite metano na atmosfera, principal gás causador do efeito estufa, alertando para o descarte adequado. Recebemos muitos litros de óleo e promovemos sua coleta em diversos pontos da cidade. Levantamento das árvores de NH Em 2009 o Movimento Roessler desenvolveu projeto de catalogação das árvores de Novo Hamburgo. A arborização faz parte do conforto das pessoas que habitam cada território. Foram catalogadas quase 2.800 árvores no trecho que liga Hamburgo Velho ao Centro. Os resultados apontam que o Ipê é a espécie encontrada com maior frequência. Tragédias no Rio dos Sinos Em novembro de 2010 o Rio dos
Carijada na Lomba Grande revive ritual indígena para produzir erva-mate

Depois de 17 horas de secagem a erva-mate já estava sendo degustada ali mesmo, na fonte, direto do carijo. A lenha atribui um sabor peculiar, a erva fica um pouco defumada, mais sapecada pelo processo artesanal e isso é bem marcante, principalmente para aqueles que vivenciam o processo todo. O ritual consiste em construir o carijo, fazer a poda, o fogo, o sapeco, a ronda durante toda a madrugada de secagem da planta, o cancheamento – ou fragmentação dos galhos, o soque – ou moagem e, por fim, a degustação do mate. Cerca de 50 pessoas oriundas de São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom, Sapiranga, Rolante, Antônio Prado, Muitos Capões, Panambi e da capital gaúcha participaram da carijada na Lomba Grande durante o final de semana. Dentre elas, estudantes de agronomia da UFRGS e produtores agroecológicos e agroflorestais motivados em conhecer a prática do carijo. A vivência coletiva e acampamento ocorreram no Quilombo, no organismo agrícola do Erno Bühler, na zona rural de Novo Hamburgo, bairro Lomba Grande. Sábado teve atividades de reconhecimento da planta e aprendizagem sobre todo o processo. Noite de cuidado com o fogo e a erva que ficou secando na estrutura do carijo. Durante a ronda noturna teve uma roda cultural com apresentação do músico Zé Martins, do grupo Unamérica. No domingo os participantes carregaram o carijo com a erva até o outro lado do campo de futebol onde estava a máquina de soque. “Foi uma aventura. Nunca tinha visto um carijo itinerante”, comentou Gustavo Türck, integrante do Coletivo Catarse – responsável pelo projeto Carijo que culminou com a produção do “Carijo, o filme”, além de livro, cartilha e diversos eventos para a multiplicação destas culturas indígenas mbyá-guarani e kaingang. O biólogo Moisés da Luz, que veio de Panambi para repassar seus saberes na arte do carijo, vem fazendo retomadas desta cultura indígena desde 2005 e formando multiplicadores no processo de fabricação artesanal de erva-mate (Ilex paraguariensis). Para sua dissertação de mestrado “Carijos e Barbaquás no Rio Grande do Sul: resistência camponesa e conservação ambiental no âmbito da fabricação artesanal de erva-mate”, pesquisou24 experiências no RS de carijos, barbacuás e assemelhados. “A retomada dos carijos proporciona a autonomia de produzir a própria erva para o chimarrão, com sabor original e novos e ancestrais sentidos em nossa vida”, comenta. “A vivência em si acaba sendo uma mística, as pessoas dormem no local, a tradição é iniciar a secagem no final da tarde, momento de celebração, adentrar a noite madrugada adentro, com outras sensações e percepções, observar a lua e as estrelas. Outra potência que o carijo possibilita é este contato com o fogo, a fumaça e a comunhão em torno da bebida,” salienta o mestre. “Essa experiência que tivemos juntos foi mágica, foi revigorante, muito especial. Quando sai do acampamento, me senti um alienígena em nosso próprio planeta, senti que meu mundo era outro”, disse o produtor Fábio Junges. A carijada no Vale do Sinos foi promovida pelo Araçá – Grupo de Consumo Responsável, com parceria de Agrofloresta Garupá, Produtos Biocêntricos e Circular Alimentos e apoio do Coletivo Catarse, do organismo agrícola da Família Bühler e do Banco de Tempo Lomba Grande. A erva-mate processada neste carijo foi colhida na sexta-feira por três produtores. Susi Grings em Dois Irmãos; Mozar Dietrisch em Santa Maria do Herval e Fábio Dias em Sapiranga. A origem do chimarrão A erva-mate é uma árvore que habita o Brasil, Argentina, e Paraguai. O seu habitat nativo são as florestas, tais como a Floresta com Araucária (que contém o pinheiro-brasileiro) e a Floresta Estacional, que acompanha os rios Paraguai, Paraná, Uruguai e seus afluentes. A origem do uso da erva-mate se deve aos povos indígenas dessa região, entre eles os Guarani e os Kaingang. A palavra mate tem origem quéchua, a qual os espanhóis pegaram emprestado para denominar o recipiente (cuia), o conjunto do chimarrão ou a própria bebida. Já o termo chimarrão provém do termo espanhol cimarón, que quer dizer selvagem, amargo, sem dono, bravo. Cátia CyleneJornalista
Os Banhados em Nós e Nós nos Banhados

O livro Os Banhados em Nós e Nós nos Banhados: Patrimônio Cultura, Material e Natural da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul, é fruto da dissertação de Mestrado em Diversidade Cultural e Inclusão Social de Débora Cristina da Silva. A obra apresenta ampla pesquisa sobre os usos dos banhados e sua relação com a comunidade. Para tanto utilizou duas questões orientadoras: Qual o espaço que o banhado tem na vida as pessoas que habitam a bacia hidrográfica do Rio dos Sinos? E, se existem fatores materiais, culturais e naturais capazes de contribuir para o processo de tombamento dos banhados da bacia Sinos? Pela crescente ocupação dos banhados a obra defende o tombamento deles como patrimônio, uma opção alternativa às leis de conservação ambiental e de gestão de recursos hídricos. Com os elementos descobertos na pesquisa, é coerente a recomendação de que o reconhecimento dos banhados como patrimônio material, cultural e natural da bacia hidrográfica do Rio dos Sinos desponta como uma estratégia viável de conservação “dos banhados em nós e de nós nos banhados”.
Curso Gestores Ambientais Comunitários

Matéria sobre o Curso Gestores Ambientais Comunitários publicada no Jornal NH de 29/10/2015.