Manifestação dos Comitês de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas sobre as enchentes

O Rio Grande do Sul passa, neste momento, pelo maior desastre ambiental de sua história. Enchentes devastadoras ocorrem após períodos de estiagem, revelando uma crise de gestão hídrica a ser enfrentada pelo Estado. É importante reconhecer que chegamos a este ponto devido à falta de aproveitamento e implementação plena do Sistema Estadual de Recursos Hídricos – SERH, criado em 1994 após mobilização popular. Tentativas de se propor outro arranjo institucional diferente do que o definido pelo SERH na Lei Estadual Nº 10.350/94 que estão circulando na mídia neste momento são um desrespeito aos mais de 30 anos de ativismo da sociedade gaúcha, governo e agentes econômicos para a valorização dos comitês de bacia e da própria legislação. O SERH foi concebido para proporcionar uma gestão integrada e eficiente dos recursos hídricos por meio dos Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo a participação democrática de todos os setores da sociedade, agentes econômicos e governo. No entanto, apesar de seu potencial, o sistema nunca foi plenamente implantado. A não implementação das agências de bacia e da cobrança pelo uso dos recursos hídricos, componentes fundamentais desse sistema, resultou em uma gestão fragmentada, desarticulada e ineficaz, incapaz de planejar e executar as ações necessárias para reduzir vulnerabilidades e, assim, mitigar os efeitos de eventos como o que enfrentamos. Os Comitês de Bacia Hidrográfica, com sua composição diversa e representativa, têm o potencial de harmonizar os interesses ambientais e econômicos, promovendo o desenvolvimento mais sustentável e a proteção dos recursos hídricos. No entanto, a falta de suporte institucional e financeiro dificulta o desempenho pleno das funções dos Comitês de Bacia Hidrográfica. A cobrança pelo uso da água não apenas financiaria parte das ações necessárias, como também incentivaria o uso racional por parte dos agentes econômicos, reduzindo a pressão sobre os recursos naturais. Os eventos extremos que vivenciamos são um alerta urgente para a necessidade de uma gestão hídrica eficiente e integrada. A implementação total do SERH é essencial para preparar o Estado para o enfrentamento dos desafios climáticos atuais e futuros. Precisamos de um planejamento com visão de Bacia Hidrográfica, capaz de entender a dinâmica dos impactos e tomar decisões que protejam toda a população, especialmente os mais vulneráveis. É fundamental que os grupos de trabalho municipais, estaduais e federais que venham a ser formados para a reconstrução das áreas afetadas contem com representantes dos Comitês de Bacia Hidrográfica, para que os trabalhos sigam a legislação e as atribuições destes comitês. Os comitês de bacia devem ser respeitados e considerados em seus papéis legais inclusive na constituição do Programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Estado do Rio Grande do Sul. Na inexistência de uma Agência de Região Hidrográfica, os consórcios surgem como oportunidade essencial no processo de recuperação e até de implementação da cobrança pelo uso da água à luz dos planos de bacia e de suas necessárias atualizações frente à emergência climática. Apelamos às autoridades municipais, do Estado e da União, assim como à sociedade gaúcha e brasileira, para que reconheçam a importância de implementar todas as ferramentas previstas no Sistema Estadual de Recursos Hídricos. É imperativo apoiar os Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo os recursos e a estrutura necessária para que possam desempenhar seu papel de forma eficaz. Somente com uma gestão integrada e democrática dos recursos hídricos poderemos enfrentar os desafios climáticos e assegurar um futuro sustentável para o Rio Grande do Sul. Viviane Feijó Machado – Presidente do Comitê Sinos Rafael Altenhofen – Presidente do Comitê Caí Sérgio Cardoso – Presidente do Comitê Gravatahy
Reflexões sobre a enchente de 2024

A enchente de 2024 é, de longe, a pior da história da presença civilizada no Rio Grande do Sul. Entre Abril e Maio choveu cerca de mil milímetros de chuva. Mais da metade do esperado para um ano inteiro. É bem provável que ela vai passar a ser o parâmetro tomando o lugar da grande enchente de 41 no imaginário popular. As águas invadiram áreas baixas de diversos locais do Vale do Sinos e outras regiões do Estado. Na região metropolitana se romperam diques e em Porto Alegre o sucateado sistema de proteção das cheias falhou completamente e grande parte da capital ficou debaixo de água. Um detalhe tem que ser lembrado. Os diques do Vale do Sinos foram locados bem perto do rio e deixaram uma parte do banhado do lado “seco” que acabou atraindo o povo sem outra opção de moradia para lá. Uma verdadeira armadilha. Isso para deixar áreas realmente altas para ocupação por gente em melhor situação econômica. Curiosamente o que também ocorreu em 1824 quando o império queria fazer a colônia onde hoje é o parque da Floresta Imperial em Novo Hamburgo, mas o dono da terra junto ao passo de São Leopoldo (terras doadas pela Coroa, por sinal) convenceu o representante local da colonização a comprar sua terra e assentar povo na beira dos banhados do Sinos. Essa área roubada ao banhado poderia estar ajudando a segurar o nível da enchente mais tempo e não seria uma área de risco humano se tivesse ficado como reserva natural a exemplo do parque da imperatriz em São Leopoldo ou o banhado da estrada da integração em Novo Hamburgo. Tivessem respeitado os banhados e talvez o centro de São Leopoldo hoje ficasse em Novo Hamburgo. O mesmo caso ocorre em Canoas, Esteio e Sapucaia onde as partes mais atingidas são os assentamentos humanos localizados em antigos banhados e várzeas. São detalhes que afetam muitas vidas e mostram como é importante que decisões importantes sejam tomadas com muito debate popular e com apoio da ciência. Os diques foram erguidos nos anos da ditadura militar e São Leopoldo foi iniciado no império. Democracia era algo que não existia nesses dois momentos históricos. O Comitesinos propôs um mapeamento das áreas de risco de todo o vale e tentou orientar os municípios, pelo menos a não deixar ocupar com mais urbanização essas regiões. Quem mais resistiu foi a gestão pública de Canoas e algumas das suas entidades empresariais. Curiosamente foi a cidade com mais gente fora de casa e que defendia que a Rodovia do Parque (BR-448) fosse construída como um grande dique para poder se expandir no sentido do rio. Se isso tivesse ocorrido certamente os danos da enchente seriam maiores ainda. Hoje pagamos um preço terrível por erros do passado no processo de ocupação do território. Outra coisa que fica evidente é que um dos problemas do RS é que estão exterminando os órgãos técnicos científicos onde trabalha a inteligência do Estado que é capaz de gerar as soluções. É triste, mas é verdade. A cultura de serviço público vai se perdendo e chega num ponto que ficamos sem rumo. No meu setor junto à Fepam se aposentaram três das cinco pessoas que tinham quando entrei. Houve uma reposição em 10 anos. Faz quatro anos que esperamos substituição dos outros dois. Em breve os mais velhos se aposentam não vai ter ninguém para ensinar transmitir a experiência que o setor acumulou para quem chegar. A Metroplan, que trabalha com o tema da proteção de inundações, perdeu muito pessoal. A Fundação Zoobotânica que estudava a nossa biodiversidade foi extinta. Nada contra a iniciativa privada trabalhar para o Estado. Muitas vezes é necessária. Mas o serviço público é essencial para conduzir a gestão. É assim em todos os países desenvolvidos. Sem serviço público de qualidade um país fica como os países pobres da África. Um verdadeiro salve se quem puder em meio a um caos de lutas internas entre grupos rivais, como já ocorre em alguns locais de nossos grandes centros. Outro fato a ser analisado nesse contexto é que o voluntariado tem limite. Ainda que sua contribuição seja um exemplo magnífico da solidariedade humana o fato é uns dias depois de a tragédia deixar de ser pauta da grande mídia a maioria dos voluntários volta para casa até porque não são profissionais e tem que cuidar de suas vidas. Quem vai seguir é o serviço público. É assim sempre. Só que não se falam disso em muitos veículos de imprensa. Especialmente os aliados com a ideia do estado mínimo que ajudou muito a levar o RS a esse estado de calamidade. O país hoje está cheio de jovens bem preparados. Muitos que gostariam de trabalhar no serviço público. Em vinte anos como servidor público trabalhei com pelo menos quarenta estagiários. Muitos nos procuraram porque queriam se tornar servidores públicos. Alguns até passaram em concurso e trabalham no setor público. O jovem que entrou no meu setor foi meu estagiário. Mas tem muitos que não recebem oportunidade. Alguns até vão embora do Brasil. Desperdiçando a sua qualificação, pois lá vão ser trabalhadores de serviços para gente com pouca formação. Também irrita um pouco a política de algumas empresas privadas de previsões meteorológicas especializadas em fazer manchetes catastrofistas para atrair leitores para suas páginas na internet recheadas de anunciantes. Quando muitas das suas previsões trágicas não ocorrem ficam quietos como as videntes que todo novo ano as revistas de fofocas entrevistam para prever o que virá. Cientificamente são capacitadas, mas não nos parece correto que lucrem atemorizando as pessoas e faturando em cima da espetacularização da desgraça (como, aliás, também o fazem muitos veículos de mídias para aumentar a audiência de seus programas). Os serviços de alerta de risco devem ser ponderados e objetivos em suas manifestações. Dar a informação precisa é fundamental para que os alertas sejam levados a sério pela população. Abusar do sensacionalismo só atrasa a formação de uma cultura de prevenção. Também vemos nessas horas que muitos
É urgente implementar as cidades-esponjas
Já passou demais da hora a implementação das cidades-esponjas em todo território gaúcho. Precisamos urgentemente transformar nossas cidades em esponjas – em sistemas capazes de absorver, armazenar e filtrar a água da chuva, reduzindo o impacto de alagamentos e aumentando a disponibilidade de água em período de escassez hídrica. O foco é empenhar todos esforços nessa reconstrução e tentar evitar novas catástrofes como essa que estamos sofrendo. É preciso correr atrás do que ainda não foi destruído e nos agarrar com unhas e dentes e raízes de agroflorestas para impedir o fim total do que resta do nosso bioma Pampa. O cavalo no telhado é nosso símbolo de força e resistência gaúcha. Mas será mesmo que precisávamos provar isso com tanto sofrimento? Com tanto descaso aos avisos de ambientalistas? Com tantas vidas perdidas? As projeções de câmbio climático já apontavam para chuvas aqui no sul, cada vez mais intensas e em períodos mais concentrados com grandes enchentes, seguidas de estiagens. Isso já é real e não pode mais ser negado. Sabemos que tudo é político, que toda decisão tem lado e quando o governador Eduardo Leite optou por cortar e alterar quase 500 pontos do Código Ambiental do RS, que já foi exemplo em outros tempos, a escolha não foi pela manutenção dos seres vivos, muito menos pela defesa do Pampa, mas sim pelo lucro acima de tudo e todos. A luta pelas vidas continua, saúde física e psicológica são prioridades agora. A verdadeira revolução é essa, a de ser “gauche” na vida. Vamos lá povo gaúcho, da lama ao caos, vamos cevar um mate muito amargo ainda. Que a gente consiga fortalecer ainda mais essa importante teia de apoio ao sul. Em nosso município compomos a Rede de Solidariedade de Novo Hamburgo que já preparou e entregou mais de 4.700 marmitas e 300 kits de sobrevivência para pessoas atingidas no Vale do Sinos. Participe e contribua como puder >> Acesse a Rede de Solidariedade NH Cátia CyleneMovimento Roessler para Defesa Ambiental
Secas, Crise Hídrica e Áreas de Preservação Permanente

Com as mudanças climáticas em franca expansão o setor agrícola tem lidado cada vez mais com o problema das secas gerando quebra de safra. Além de ser um problema para a geração de renda no setor, ele também é uma preocupação quanto à segurança alimentar da humanidade, cuja necessidade de comida tende a crescer com a expansão da população. O que pode fazer mais gente no mundo correr riscos de passar fome. Em geral, se houve muitas vozes indicando a irrigação como saída para diminuir esse risco. São apontados sempre os mesmos caminhos. O uso de tecnologia de irrigação mais eficiente que use menos água, grandes obras de transposição de bacia e a necessidade de mais estruturas de armazenamento dos excessos de chuvas para uso nos meses de escassez. Essa lógica está correta de um modo geral. Mas para ser efetiva é preciso, antes de tudo, ter água disponível para todos os usos humanos. As projeções de cambio climático apontam que a disponibilidade de água pode cair em várias regiões do Brasil. No noroeste da Bahia os estudos do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) apontam a passagem de uma região do semiárido para um clima árido com a redução do regime de precipitação já se verificando. No sul parece que vai chover mais, mas cada vez em períodos mais concentrados com grandes enchentes seguidas de estiagens curtas ou mesmo mais longas. Vários aspectos a serem observados A opção por irrigação é correta, mas depende de disponibilidade do recurso. Se não chove regularmente não adianta ter estrutura de irrigação. Inclusive se fala num paradoxo da melhoria da tecnologia de irrigação. Quanto mais eficiente for à irrigação mais gente procura se valer dela. O que aumenta o consumo resultando no curioso fato de que com mais tecnologia de irrigação aumenta a falta de água não só na agricultura, mas em outros usos também. Mesmo contando com obras de reservação ou transposição pode faltar água se ela não estiver disponível na grande caixa d’água natural que é o solo. Um metro quadrado de solo pode segurar até 500 litros de água. Mas para isso ela tem que entrar no solo. E isso só ocorre quando se preservam as áreas naturais produtoras de água que são os banhados, as matas e a vegetação natural, junto às encostas e nascentes, bem como as Áreas de Preservação Permanente (APP). Essas áreas estratégicas para infiltração de água no solo deve ser o foco principal de quem se preocupa com falta de água na agricultura e noutros usos. Solos urbanizados ou com agricultura muito intensa não têm a mesma taxa de infiltração de água do que um solo conservado com vegetação natural. A grande transposição do São Francisco corre o risco de não ter água suficiente se seguir a devastação do Cerrado e as Áreas de Preservação Permanente junto aos rios mais acima na bacia. É ali que a água entra no solo e vai ser liberada aos poucos na época seca. Esse mesmo risco existe para os sistemas de transposições que abastecem a Grande São Paulo e a cidade do Rio de Janeiro. No sul pode faltar água a ser acumulada em barragens e açudes, caso as APP e outras áreas estratégicas para infiltração de água no solo seguirem sendo destruídas. Importância das nascentes Todos que já acompanharam um processo de recuperação da vegetação nativa numa região logo apontam a volta das nascentes como um dos primeiros frutos dessas ações. Junto com o retorno da fauna silvestre é um dos primeiros efeitos percebidos o aumento da água nos cursos hídricos, pois aumenta a reserva no lençol freático onde a água está protegida da evaporação. O que não ocorre em barramentos e açudes onde o sol quente e o ar seco das estiagens podem roubar muito da água acumulada. Mas infelizmente não se vê essa lógica sendo muito difundida nos debates sobre a falta de água. O que se vê são saídas caminhando no sentido de destruir essas áreas estratégicas para infiltração de água no solo, em especial as APP. E saídas querendo reservar água, um bem público, para usos exclusivamente privados. RS na contramão No Rio Grande do Sul um projeto de lei liberou para quem quiser fazer açude e barragem o uso das Áreas de Preservação Permanente. O que beneficia apenas uns poucos grandes produtores. Em geral os que também têm grandes Áreas de Preservação Permanente devastadas. Além disto, com essa lei estamos voltando ao Código das Águas de 1934 que considerava a água localizada numa área de terras como propriedade privada de quem era dono das terras onde ela era armazenada ou mesmo a que ocorria naturalmente. Isso vai contra o conceito de água como bem público que embasa a legislação nacional de gestão das águas. O que a torna inconstitucional. Essa lei vai aumentar o risco de conflito por água como já ocorre em muitos lugares do mundo onde se criou maciços projetos de irrigação que levam a falta dela nas partes mais baixas das bacias. O que deveríamos estar fazendo é incrementar ainda mais os comitês de bacias onde democraticamente podemos gerar políticas públicas para garantir água de abundância e qualidade para todos os usos. Também temos que implantar mais projetos de recuperação das áreas estratégicas para infiltração de água no solo. Isso vai ajudar no combate, tanto das consequências como das causas das mudanças climáticas pelo sequestro de carbono e pelo aumento da disponibilidade da água no solo. Também ajuda na proteção da biodiversidade e reduz a poluição das águas. Regiões com áreas estratégicas para infiltração de água no solo e APP recuperadas e/ou preservadas tem águas mais limpas, pois a vegetação filtra a contaminação ambiental de resíduos tóxicos lançados na água. A saída para o risco de falta de água não é trabalhar contra a natureza, mas sim usar as estratégias que ela sempre usou para garantir água boa, mesmo em regiões que naturalmente chove pouco. E pensar no que é interesse coletivo sempre em primeiro
Movimento Roessler completa 37 anos

Notícia do Jornal NH do sábado, dia 20/06/2015.
Entrevista com Arno Leandro Kayser, para a 34ª Edição da Educação Ambiental em Ação

Entrevista com Arno Leandro Kayser, para a 34ª Edição da Educação Ambiental em Ação Por Bere Adams Apresentação: O entrevistado desta edição é o engenheiro Agrônomo Arno Leandro Kayser, de Novo Hamburgo/RS. Conheço o Arno de longa data, inclusive fomos colegas por um ano. Sua atuação nas questões ambientais sempre estiveram presentes em sua vida, participando de vários movimentos ambientais. Atualmente, trabalha na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler – RS (Fepam). Ele vai nos contar um pouco da sua jornada. Bere – Olá, Arno! Conte-nos como foi seu ingresso nas questões ambientais e o que lhe motivou para se dedicar a elas. Arno – A história é meio longa, mas tudo começou na infância. Vivi em Novo Hamburgo numa época em que a cidade era menor e minha casa ficava próxima da zona rural. Havia muito verde, arroios limpos e muitos animais selvagens nos nossos territórios de brincadeira onde circulávamos sem medo. Perto de casa havia um ingazeiro muito grande plantado pelo dono do armazém aonde as crianças brincavam e olhavam o mundo ao redor. Era o ponto de encontro de colonos que desciam de Dois Irmãos para vender no armazém. Eu gostava muito desta árvore, mas quando estenderam a rede elétrica na Vila ela foi cortada. Algo que me chocou muito e me despertou para o problema da devastação da natureza e a vontade de proteger as árvores e os animais em geral. Mas tarde, minha tia Marlene me falava das palestras do Lutzenberger em Porto Alegre. O que fez ver que havia muitas pessoas interessadas em defender a natureza. A base se completou com as aulas de ecologia que tive na Fundação Evangélica, no segundo grau, com o professor Schmeling e a formação na faculdade de Agronomia e um estágio na Alemanha em agricultura alternativa. Bere – Qual é o seu envolvimento com o Movimento Roessler? Arno – Eu participo desde 1985, quando voltei da faculdade para Novo Hamburgo e trabalhava no Horto da Prefeitura de Novo Hamburgo. Participei de várias ações na entidade como a luta contra as podas, a defesa do Rio dos Sinos, a criação do Parcão e muitas outras. Já exerci vários cargos na entidade a representei na Apedema, Fundo Nacional do Meio Ambiente, Comitesinos e Pró Guaíba. Bere – Entre trabalhos desenvolvidos por você na área ambiental, qual deles você destaca? Arno – A administração do Horto de Novo Hamburgo que me deu oportunidade de plantar milhares de árvores e divulgar a importância da plantas nativas; o trabalho na assessoria de Educação Ambiental da Prefeitura de Novo Hamburgo, me envolvendo com a formação de crianças e adultos para os temas do meio ambiente; o trabalho na consolidação do Comitesinos, primeiro comitê de Bacias do Brasil; o trabalho de escritor de Ecologia no Jornal NH, Folha de Novo Hamburgo, revista Mundo Jovem e outras publicações que levaram minhas ideias para muitos públicos Brasil afora; a publicação de livros e a montagem de texto de teatro infantil e vídeos de ecologia que ampliaram minha capacidade de expressão nesta área. Também destaco meu trabalho no Pró Guaíba, no Fundo Nacional do Meio Ambiente e na Fepam, aonde pude me envolver em vários projetos e ações em prol da proteção ambiental. Bere – Quais as maiores dificuldades encontradas durante sua trajetória? Arno – A incompreensão de muitas e muitas pessoas que enxergam nos ecologistas pessoas intolerantes e não percebem que o trabalho em prol do meio ambiente é a maior revolução cultural dos nossos dias. A falta de apoio aos grupos ecologistas locais para terem um mínimo de infraestrutura para agirem e ampliarem seus trabalhos. Bere – Para você, qual a importância da Educação Ambiental? Arno – A Educação Ambiental é fundamental como processo transformador da consciência de todos os seres humanos nestes nossos dias para que percebam que somos todos parte deste Planeta e que devemos proteger e respeitar as leis que garantiram o processo vital que nele evoluiu ao ponto de torná-lo uma joia rara neste universo. Penso que ela deve fazer parte da estratégia de todas as instituições humanas e não ser interpretada apenas como algo voltado para as crianças e jovens, mas um aprendizado importante também para os adultos de todas as gerações para que a humanidade tenha futuro neste Planeta. Bere – Desde que você ingressou para o ambientalismo, quais as diferenças que você percebe nas posturas das pessoas em relação ao meio ambiente? Arno – Antes de mais nada gostaria de me definir como um ecologista ou como alguém que com a luz do conhecimento cientifico desenvolve uma ação cidadã organizada em prol do meio ambiente, e que atua também, movido por sentimentos e devoção espiritual. Ambientalismo envolve uma gama muito maior de pessoas dentro da iniciativa privada e pública comercial e política que, nem sempre, tem como norte a defesa da vida, mas de interesses profissionais, econômicos ou políticos. Mas uma coisa que mudou muito é que antigamente a maioria das pessoas, mesmo os ecologistas, não acreditava ser possível transformar o rumo da nossa sociedade no sentido de uma prática que respeite os limites impostos pelas leis naturais. Hoje, além de acreditarem, vejo muitas pessoas pondo as ideias em prática de uma forma muito criativa e construtiva. Bere – Muito bom esse seu esclarecimento que evidencia diferenças entre ambientalismo e ecologismo. A própria Educação Ambiental também é confundida com Ecologia em muitas circunstâncias. Percebo você otimista em relação às ações e ideias práticas desenvolvidas por pessoas. E em relação a instituições privadas e órgãos governamentais, dá para perceber esse movimento? Arno – Acho que há muitas instituições privadas atuando em prol do meio ambiente. Em particular as entidades ecológicas criadas para tal fim. Mas elas sofrem muito com falta de apoio e realizam verdadeiros heroísmos para praticar seu papel. Muitas empresas apoiam o meio ambiente, mas ainda a ação é de propaganda e construção de uma imagem positiva que não se verifica na pratica e nos seus processos produtivos. Os consumidores, de um modo geral, têm
Uma reflexão sobre sapos, ecologia e política

Uma reflexão sobre sapos, ecologia e política Reza a lenda que, se um anuro fosse colocado em uma panela com água quente, ele saltaria para fora imediatamente; porém se a água estivesse fria, e fosse aquecida aos poucos, o pobre batráquio seria cozido vivo sem coaxar. Entretanto, é provável que, se tal crueldade fosse experimentada com muitos sapos, alguns ainda perceberiam que algo de errado estava a acontecer e tentariam pular para fora da panela a tempo de se salvar. As pessoas que compreendem a gravidade do acelerado processo de degradação ambiental do planeta pelo impacto da civilização humana tendem a agir como esses sapos mais espertos, porém logo se dão conta de que não há para onde saltar, sendo necessário interromper e reverter o processo. Para isso, se organizam em entidades que têm por objetivo lutar pela conservação do meio ambiente, a exemplo do Movimento Roessler. Dessa forma muito se conquistou nas últimas décadas. Porém a situação ambiental atual do planeta, quase no limiar da terceira década do século XXI, parece desanimadora e, sob certos aspectos, catastrófica. Evidências há: abundantes, preocupantes e irrefutáveis – exceto para os obscurantistas que negam a ciência – sabe-se lá movidos por que ânimo, recalque, ou recompensa. São como aqueles sapos menos espertos, que não percebem, ou não ligam para o seu destino. Parte considerável das mazelas ambientais pode e deve ser creditada aos grandes responsáveis: políticos de visão tacanha, egoísta, preconceituosa e imediatista que se aproveitando das fraturas sociais, a cada dia mais expostas, conseguem chegar ao poder para então traírem a confiança dos eleitores de boa-fé, ferindo a democracia que lhes concedeu mandatos ao adotar uma assustadora agenda de desmonte de quase tudo aquilo que se havia conquistado até então pelo trabalho de várias gerações de abnegados conservacionistas. Como consequência dessa ação nefasta, uma sucessão infindável de desastres ambientais vem causando sobressalto aos que compreendem a gravidade da situação. Sem muito otimismo se espera que os remédios da democracia permitam reverter esse quadro com a brevidade possível, embora tendo em mente que a recuperação dos danos gravíssimos causados à natureza e provocados por tanta infâmia poderá demandar mais tempo do que a nossa própria expectativa de vida. Não resta dúvida: é necessário e urgente que, de uma vez por todas, a agenda ambiental ocupe lugar nos executivos e legislativos. As principais preocupações dos políticos e dos eleitores costumam ser meramente conjunturais e circunstanciais, enquanto a conservação do meio ambiente é pressuposto básico para a continuidade de todas as formas de vida, das quais depende a vida humana. Assim sendo, entende-se imprescindível atuar na política de forma cada vez mais incisiva em nome da conservação ambiental: ou pela construção de candidaturas para buscar mandatos coletivos que sejam comprometidos com a causa ecológica, ou pela exigência de posicionamentos mais claros dos candidatos em relação às pautas ambientais decisivas, ou por uma forte cobrança de coerência daqueles que forem eleitos, denunciando-se os desonestos e traidores, à sociedade e à Justiça, para que venham a ser punidos pela aplicação da Lei, ou através do voto – exatamente aquilo que se espera em relação aos criminosos ambientais de hoje. Enquanto isso, sejamos sapos espertos para que os nossos girinos e os girinos deles possam vir a nadar em água fresca! Gerson Rolim Guidobono NOS ACOMPANHENAS REDES SOCIAIS Facebook Instagram Youtube ÚLTIMAS NOTÍCIAS Uma reflexão sobre sapos, ecologia e política Read More Tá ruim, mas tá bom Read More Movimento Roessler aciona MP sobre o arboricídio no Parcão Read More 45 anos resumidos numa estampa Read More PrevAnteriorDireitos da Natureza PróximoMovimento Roessler aciona MP sobre o arboricídio no ParcãoNext Compartilhe
Tá ruim, mas tá bom

Tá ruim, mas tá bom É muito preocupante esta condição de “tanto faz” que estamos vivendo há um tempo. Estamos nos acostumando a aceitar com apatia a usurpação de direitos e um arrocho geral das coisas que eu não lembro de ter vivido (talvez no tempo do Império fosse pior, apesar as novelas tentarem fazer-nos acreditar que não). Parece haver uma anulação progressiva das vozes de pessoas e de organizações da sociedade dedicadas ao coletivo. Ainda que muitas destas organizações tenham participação em conselhos e lhes seja permitida a manifestação de opinião, parece tudo montado para que estas participações tenham apenas o propósito de legitimar decisões prontas. Votação em regime de urgência, votação simbólica, baciada e abertura de porteira para a boiada. Um novo tipo de colonização, uma colonização interna (parafraseando Ailton Krenak), em que a minoria cada vez mais empoderada abocanha bens e serviços da maioria cada vez mais cordata e pobre. Foi assim com as fundações públicas do RS (FEPPS, FEE, FZB, TVE) e agora se pretende com a CORSAN. Para aqueles que acham que extinguir órgãos públicos é uma boa para a economia, valeria uma pesquisa para saber quanto o Estado está gastando para suprir aquelas demandas antes supridas pelas Fundações. Com cada vez mais gente morando em cidades, o tratamento e distribuição da água passam a ter uma importância cada vez maior. Pode se transformar num ótimo negócio. E isto não passa despercebido pelo faro do capital. Depois de mais de 50 anos investindo em infraestrutura e equipamentos, e com uma história recente de superávit, a CORSAN agora está madura para passar às mãos do capital privado. Se é tão complicado e oneroso prover água tratada e fazer o tratamento do esgoto, como querem fazer acreditar aqueles que estão com a caneta na mão, por que o capital privado se interessaria tanto? Por altruísmo? No caso da CORSAN chegamos a um ponto visceral da dominação do capital privado sobre o público. Digo visceral porque a água é tão importante para nós que a trazemos conosco. Estamos nos colocando por inteiro nas mãos dos invisíveis. Se não por inteiro, pelo menos 60%, que o é nosso peso em água. Julian MauhsBiólogo NOS ACOMPANHENAS REDES SOCIAIS Facebook Instagram Youtube ÚLTIMAS NOTÍCIAS Tá ruim, mas tá bom Read More Movimento Roessler aciona MP sobre o arboricídio no Parcão Read More 45 anos resumidos numa estampa Read More Direitos da Natureza Read More PrevAnteriorComitesinos institui GT para definir mecanismo e preço pelo uso da água Próximo45 anos resumidos numa estampaNext Compartilhe
Sobre acolhimento e amor

Sobre acolhimento e amor Há controvérsias sobre acolher e tratar filhotes que caem dos ninhos, o que acontece muito na primavera. Deixar a natureza agir, ou interferir? Colocando-me no lugar deles, eu resgato. Pensa na cena: tu, um bebê chorando desprotegido e se ninguém te socorrer?… Aprendi com a minha mãe e perdi a conta dos salvamentos que fizemos juntas; continuo com essa tarefa enriquecedora e nesse momento tem um sanhaçu azul cinzento dormindo dentro de casa, o Jambu. Para quem não sabe, hoje está bem mais fácil essa incumbência. Além da clássica seringa bem fina (sem agulha, óbvio, rsrsrs), tem alimentos completos nas pecuárias, inclusive minhocas desidratadas e há os comedores de frutas. Uma questão de pesquisar a espécie resgatada e o tempo de iniciar cada tipo de alimento. Inicia numa caixa com poleiros e se não tiver um local na casa, logo que começa a voar deverá ficar numa gaiola temporária, com água. Aliás, eles adoram banho! Borrifar uma vez por dia, assim que tiverem bem empenados. O Jambu “pede” e borrifo todo dia. Continua tratando com seringa até aprender a comer sozinho e a soltura só deverá ocorrer quando souber voar e comer totalmente sem a seringa. Nos primeiros dias após a soltura, o ideal é deixar a gaiola aberta, os alimentos e água disponíveis fora da mesma, até que aprenda a procurar por conta própria. Isso só os pais legítimos ensinam. A dedicação te faz amar muito esses pequenos seres e o observar diariamente é surpreendente!! A inteligência inata e o instinto de sobrevivência chegam a ser comoventes quando acompanhamos tão de perto. Como diz minha amiga Helena Oliveira, “é como se tivessem conversando com a gente e mais do que em tempos atrás, hoje, essa comunicação está mais afinada”. Ela diz ainda e concordo: “certamente nós estamos menos arrogantes”. Afinal, nós aprendemos com eles e não me sinto tão inteligente quanto, pois não sigo metade dos instintos naturais. Se agíssemos de acordo com as leis da natureza, certamente o mundo estaria em equilíbrio. Silvana Santos Ilustradora, companheira do Cláudio, mãe de bichos, cozinheira, participante do Movimento Roessler e buscadora de harmonia. NOS ACOMPANHENAS REDES SOCIAIS Facebook Instagram Youtube ÚLTIMAS NOTÍCIAS Sobre acolhimento e amor Read More Movimento Roessler aciona MP sobre o arboricídio no Parcão Read More 45 anos resumidos numa estampa Read More Direitos da Natureza Read More PrevAnteriorComitesinos institui GT para definir mecanismo e preço pelo uso da água Próximo45 anos resumidos numa estampaNext Compartilhe
Curso Gestores Ambientais Comunitários

Matéria sobre o Curso Gestores Ambientais Comunitários publicada no Jornal NH de 29/10/2015.